Ciência com fronteiras? (Inter)disciplinaridade na universidade brasileira

Suponha que, por uma mágica, pudéssemos trazer do passado alguns dos maiores cientistas e pensadores do século XX. Seria o “ciência sem fronteiras temporais”, através do qual gênios como o biólogo russso Theodozius Dobzhansky *, o físico dinamarquês Niels Bohr e o psicólogo social americano Stanley Milgram, e muitos outros, viriam reforçar os trabalhos em nossas universidades. Quem rejeitaria tão célebres figuras em seus departamentos?

Imagine que, entre os ilustres candidatos a professor vindos do passado, estivessem: Jean Piaget, concorrendo a uma vaga para professor de Psicologia do Desenvolvimento na Universidade Federal da Paraíba; e Karl Popper, concorrendo a uma vaga para professor de Filosofia e Método da Ciências na Universidade Federal de Alagoas. O que vocês acham, eles seriam aceitos?

Ocorre que as vagas citadas acima estão sendo oferecidas pelas respectivas universidades (ver editais abaixo). Infelizmente, Piaget e Popper não estão mais entre nós, e só na minha imaginação poderiam prestar o concurso, mas espero que pessoas qualificadas se apresentem para a seleção. Contudo, cabe aqui uma questão: quem está qualificado para assumir essas vagas?

Para a vaga de Psicologia do Desenvolvimento, o edital da UFPB exige que o candidato seja graduado em psicologia e tenha doutorado nessa área. No caso da UFAL, as vagas para a disciplina de “Produção do conhecimento: ciência e não-ciência” (cujo os pontos tratam da filosofia, método e divulgação da ciência) só podem ser ocupada por candidatos com graduação em Filosofia ou Ciências e Humanas e mestrado nessas áreas. Mas o que torna uma pessoa qualificada para ser professor de Psicologia do Desenvolvimento, ou de Filosofia da Ciência?

De maneira geral, no mundo todo, a formação para professores e pesquisadores nas universidades ocorre por meio dos cursos de pós-graduação strictu-sensu (mestrado e doutorado). Num processo que leva, em média, 4 a 6 anos, o estudante desenvolve a capacidade de desenvolver pesquisa em uma área bem específica e, dependendo de seu esforço, também alguma aptidão para ensino e extensão. O mestrado e o doutorado permitem que um profissional já graduado se aperfeiçoe em um campo mais restrito que o de sua graduação. Assim, por exemplo, o estudante graduado em Geografia pode fazer mestrado e doutorado em Geopolítica. Em outras situações, a pós-graduação pode ser interdisciplinar (p. ex. Físico-química ou Psicobiologia) ou multidisciplinar (ex. Neurociências). Principalmente nos casos de uma pós-graduação que envolve mais de uma disciplina, é comum que a presença de estudante que cursaram uma graduação diversa. Assim, em um doutorado de Neurociências, podemos encontrar biólogos, psicólogos, médicos, engenheiros e muitos outros.

Na maioria das vezes, os cursos de graduação não permitem formação suficiente em uma área específica, pois devem ser amplos quanto às disciplinas estudadas, nem garantem formação suficiente em pesquisa, pois não é esse o propósito principal da graduação. Por isso, os concurso para professor das universidades devem observar a formação dos candidatos em nível de pós-graduação, e não de graduação. É assim que se faz na Europa e América Anglo-Saxônica. Em alguma situações, evidentemente, a graduação é muito importante – só um médico neurocirurgião pode ser professor de Neurocirurgia – mas, na maioria dos casos, a pós-graduação é o fator relevante.

Feitas essas considerações, vamos analisar os casos da UFPB e UFAL. Para a vaga da UFPB, somente psicólogos podem se apresentar. Agora, nos questionemos quem estaria mais bem preparado: um biólogo ou médico pediatra com doutorado em Psicologia e tese sogre desenvolvimento humano, ou um psicólogo com doutorado em Psicologia Social e tese sobre o marxismo? Quanto ao caso da UFAL, somente será aceito como professor de filosofia e método da ciência que tem formação de graduação e mestrado na área humana. Mas quem estaria mais preparado para a vaga: uma pessoa com graduação e mestrado em Física (tendo cursado Filosofia da Ciência) ou uma pessoa com graduação e mestrado em Administração (não tendo cursado Filosofia da Ciência)?

Quando um edital de um concurso é muio restrito aos possíveis candidatos, ele não apenas veta a participação de possíveis ótimos profissionais, como também desmerece o processo seletivo. Tais concursos costumam apresentar quatro provas, a saber: de conhecimento, didática, de título e análise do memorial. O candidato selecionado é aquele que demonstrou mais conhecimento, ser o melhor professor, ter a maior e melhor contribuição científica e ter o melhor plano de trabalho. Satisfeitas essas condições, qual preocupação resta quanto à sua graduação? Vale a pena trocar o melhor em tudo por outro apenas por conta de um papel – sim, um papel, pois as aptidões se mostram nas avaliações.

Ao adotar essas restrições, as universidades rejeitam a interdisciplinaridade em favor de uma disciplinaridade corporativista, e enfraquecem uma de suas principais características – a universalidade do conhecimento nos espaços acadêmicos- não fazendo mais justiça ao próprio nome.

Caso vocês não saibam, Piaget era biólogo e fez doutorado em Zoologia. Isso não impediu, contudo, que após formação posterior, que ele lecionasse psicologia em várias universidade europeias, e viesse a ser um doso maiores nomes de sua área. Karl Popper, por usa vez, fez graduação de licenciatura em Matemática e Física e, após doutorado em Filosofia, foi professor de filosofia da ciência na Universidade de Viena. Diferente do que ocorre nos países desenvolvidos, e na contra-mão da história, as universidade brasileiras impõe mais uma fronteira à ciência. Brasil, a terra na qual Piaget não poderia ser professor de psicologia e Popper não poderia ser professor de filosofia da ciência.

 

Cleanto Rogério Rego Fernandes

 

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Edital UFPB: http://site.pciconcursos.com.br/arquivo/1283512.pdf

 

Edital UFAL: http://site.pciconcursos.com.br/arquivo/1292244.pdf

 

* Dobzhansky fez visitas científicas ao Brasil e foi um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento inicial da genética no primórdio da USP.

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