Em defesa do cientista viajante

A ciência mundial já foi guiada por umas poucas cabeças pensantes, que atraíam legiões de pupilos e seguidores, com acesso quase que exclusivo ao conhecimento do seu mestre. Como cientista, sua carreira deveria seguir uma única escola científica, o que automaticamente transformava os indivíduos da outra linha de pensamento em opositores, ou mesmo inimigos. Você deveria seguir “religiosamente” seu mestre, sem impor questionamentos, afinal era ele que bebia das fontes científicas primárias espalhadas em bibliotecas pelo mundo e tinha acesso aos outros cientistas. O aspirante a cientista deveria focar-se em absorver o conhecimento que seu mestre paulatinamente lhe oferecia. Com grande sorte, uma vez na vida você teria acesso a um dos grandes pensadores da sua linha, cuja oportunidade deveria agarrar com as duas mãos e fazê-la durar o máximo possível, visando o estabelecimento de um sólido relacionamento profissional.

Jovens pesquisadores brasileiros parecem seguir esta tradição. Este movimento é comparável ao que aconteceu, quando cientistas americanos migraram aos grandes centros europeus; ou no movimento contrário, mais atual, em que asiáticos (principalmente chineses e indianos) tem migrado aos Estados Unidos na busca de conhecimento, acesso a técnicas modernas e financiamento à pesquisa. Não causa mais estranhamento se deparar com artigos encabeçados por sobrenomes tão aparentemente dissonantes quanto “Cheng & Johnson”, mesmo em publicações de altíssimo impacto científico. O panorama atual é de que países como China e Índia tem uma enorme população de cientistas vivendo (e produzindo) em países estrangeiros. O Brasil figura em 3º nessa lista de países com maior número de “cientistas exilados”. Há estimativas de que temos aproximadamente 14 mil cientistas atuando em centros estrangeiros. Parece-me claro que o intercâmbio de experiências e a mobilidade de pessoas tem sido uma importante força motriz da ciência globalizada.

Artigo recente da revista Nature aponta uma direção atual, que revitaliza as relações de cientistas com a comunidade internacional. Particularmente, identifiquei-me com a análise, pois sinto que vivi parte deste fenômeno durante minha pós-graduação, finalizada no último ano. Aquele modelo, de que o cientista deveria se limitar a uma única linha de pensamento, para que em algum momento, provavelmente durante um pós-doutorado, tivesse exposição e acesso à comunidade internacional, simplesmente não cabe mais nos dias atuais. Até pouco tempo atrás havia um grande incentivo, inclusive financeiro, para que doutores brasileiros realizassem longos pós-doutorados no exterior (3-5 anos), se possível no laboratório de algum “papa” da sua área, para que estabelecesse sólidas relações profissionais e pudesse manter este contato como uma fonte de alimentação científica para o laboratório que eventualmente montaria no Brasil, ao retornar. O fato é que muitos não retornaram, e infelizmente já se acostumaram a preparar salsichas e hambúrgueres em churrasqueiras movidas a gás butano no final de semana (o popular “barbiquíu”, eu não chamaria de churrasco).

Hoje, esta experiência que antes estava fadada a ser única na vida do cientista, tornou-se uma espécie de senso comum. É frequente vermos pós-graduandos sonhando em iniciar a carreira somente após um tão almejado pós-doutorado no exterior. Em minha opinião, este modelo servia bem para os anos anteriores à consolidação da internet e à incrível facilidade com que temos hoje para viajar o mundo. Não há que se reprimir os que tomam esta decisão, mas não podemos mais aceitar esta realidade como imutável. Um dia, ainda no final do mestrado, ousei investir meu único bem material, um carro popular, para participar do meu primeiro congresso internacional. Como o investimento era grande, planejei uma viagem de “mochileiro” por 2 meses pela Europa, para poder ampliar um pouco mais meus horizontes. No meio da viagem, resolvi enviar um email e poucos dias depois bater à porta de um pesquisador que admirava, cujas descobertas haviam sido cruciais para a definição do meu projeto de mestrado em Psicofarmacologia. No dia 30 de novembro, com muita neve se acumulando nas ruas de Munique, e um tempo horrível para um brasileiro acostumado às praias de Florianópolis, ousei tocar a campainha do Laboratório de Neuroplasticidade do Instituto Max Planck de Psiquiatria. E isto mudou a minha vida para sempre.

Pouco mais de um ano depois saía de Floripa para passar 18 meses trabalhando neste instituto como pesquisador convidado. O resultado concreto disto, além dos artigos publicados, é que ao final do meu doutorado, havia tido contato e colaborado com 6 grupos de pesquisa, em 3 países diferentes. Foi muito gratificante no slide final da minha defesa (no Brasil) poder relembrar dos pós-graduandos e cientistas alemães, franceses, italianos e, claro, brasileiros que contribuíram com idéias, opiniões e técnicas que eu certamente não teria acesso se ficasse isolado dentro do laboratório em Floripa. E não foi preciso me doutorar, usar de contatos já estabelecidos, ou esperar um “pósdoc” para ter acesso a estas pessoas. Isso sem contar a incrível comunidade de cabeças pensantes que você encontra participando de escolas científicas internacionais, que se tornam cada vez mais populares. Ao longo da minha pós-graduação foram duas no Brasil, uma na França, e este texto nasceu literalmente de dentro de umas destas escolas, que está sendo realizada no Chile, no meio do deserto do Atacama. Alguém já ouviu falar da Latin American School for Education, Cognnitive and Neural Sciences? (http://www.laschool4education.com/) Fique atento, a segunda sera ano que vem…! Quando se juntam pessoas interessantes em um lugar especial e lhes incentiva à liberdade de pensamento, o resultado é certamente uma comunidade fervilhando de novas idéias e de soluções criativas para os problemas coletivos e individuais.

O recado é que simplesmente não há mais a necessidade de se esperar tanto tempo para ter acesso aos grandes mestres do pensamento mundial, ou mesmo se restringir a uma única fonte de conhecimento. O pósdoc no exterior não precisa mais ser o momento de exposição internacional, nem o rito de passagem para o início de uma carreira científica. Acredito que este mito se mantenha por simples medo, excesso de respeito, ou pela tradição estabelecida pelas gerações anteriores. É preciso um pouco de ousadia, e principalmente coragem, mas temos que reconhecer que as dinâmicas atuais são outras, e as distâncias, cada vez menores. Nós jovens cientistas precisamos nos acostumar a quebrar os mitos e barreiras, deixarmos aflorar nossa dimensão social, e compartilharmos nossas idéias para vê-las multiplicando e frutificando em mentes alheias. Belas iniciativas são inevitavelmente criadas em coletivo, e você precisa levantar da sua confortável cadeira para que elas se tornem realidade.

Vem pra estrada também!

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