Ciências neurais, cognitivas e… educação?

Em um breve editorial na Science em 2007, John Bruer, presidente da James S. McDonnell Foundation  (JSMF) e Kathryn Hirsh-Pasek, professora na Temple University, contam, resumidamente, os resultados de um encontro no Chile sobre as ciências do cérebro e educação. Na ocasião, políticos, educadores, cientistas e legisladores buscavam uma solução para o complexo campo da educação em “pesquisas baseadas em evidência”. Segundo a dupla, no primeiro dia já ficou claro que as respostas não estavam prontas e que o pensamento dos participantes era enviesado por “mitos pedagógicos baseados em neurociências”. Ou seja, ao invés de trazer respostas, a reunião gerou perguntas: Como um grupo internacional de cientistas pode comunicar que há conhecimento científico de interesse para a educação? Como as neurociências podem se tornar um aspecto, ao invés de ser a força motriz, das recentes discussões sobre educação? Para esclarecer estes e outros tópicos, a reunião culminou na Declaração de Santiago, documento aberto redigido por cientistas do Chile, Alemanha, França, Holanda, Espanha, Reino Unido e EUA. O documento destaca a importância da aprendizagem em contextos relevantes, da aprendizagem ativa, ao invés de passiva e da necessidade de nos ocuparmos do como, e não apenas com o quê as crianças aprendem. Importante também lembrar, segundo os autores do texto na Science, que educadores e políticos motivados são os usuários finais do conhecimento científico da área, e que portanto os cientistas devem escutar as questões práticas destes consumidores.

Na busca de estabelecer e fomentar esse complexo diálogo, surgiu então a Latin American School for Education, Cognitive and Neural Sciences, que teve sua primeira edição entre 7 e 18 de março deste ano, após ser adiada devido ao terremoto que atingiu o Chile em março de 2010.

Reuniram-se no Atacama uma série de pesquisadores e cientistas para falar desta interface desejável, porém ainda incomum e pouco debatida entre as neurociências e a educação. Patrocinado pela JSMF e pela Universidad de Chile, o encontro foi organizado pela chilena Marcela Peña em compania do argentino Mariano Sigman e do brasileiro Sidarta Ribeiro (com a colaboração de um grupo de estudantes da Universidad de Chile e da equipe da JSMF). A SBNeC apoiou a realização do evento, tendo financiado minha passagem aérea (muito obrigado!) e de mais um estudante, dentre os 6 brasileiros selecionados para o encontro.

O tópico é uma preocupação de longa data da JSMF, que se dedica à diversos aspectos das ciências cognitivas e da educação há décadas. John Bruer é também autor de famoso artigo intitulado “Neurociência e educação: uma ponte muito distante”, publicado em 1997. Nele, o presidente da JSMF argumentou que o elo entre a neurociência e a educação ainda estava muito distante, mas poderia ser construído através da psicologia cognitiva, que já dialogava com a educação há 50 anos, e com a neurociência, há pelo menos uma década.

Esta visão cognitivista se reflete na participação de alguns peso-pesados da área na LA School (apelido carinhoso atribuído pelos participantes): Jacques Mehler, diretor do laboratório de desenvolvimento, linguagem e cognição da Scuola Internazionale Superiore di Studi Avanzati, Trieste, Itália; Marcus Raichle, professor de radiologia, neurologia, neurobiologia e engenharia biomédica na Washington University in St Louis, EUA; Michael Posner, professor emérito da University of Oregon e prof. adjunto de psicologia e psiquiatria no Weill Medical College da University of Cornell, EUA; Robert Stickgold, professor associado de psiquiatria no Beth Israel Deaconess Medical Center e na Harvard Medical School e Stanislas Dehaene, professor da nova cadeira de psicologia cognitiva experimental no Collège de France em Paris (a lista completa de professores e alunos pode ser consultada no site do curso).

Dada a abrangência do tema e a profundidade das perguntas já expostas, não surpreende a característica principal da escola ter sido o desafio de desenvolver um novo campo, ao invés de ensinar os alunos como proceder. Durante todo o tempo foi colocado aos estudantes o desafio de realizar e aprofundar este debate. Para isto, foram frequentes as rodas de discussão, para que os estudantes pudessem ativamente participar opinando, criticando e sugerindo possíveis abordagens nas mais diversas partes do mundo. O contexto sócio-econômico e cultural ocupou grande parte do curso, dado que a escola é na América Latina, mas a maioria dos palestrantes é, ou trabalha em, países economicamente mais desenvolvidos, onde a realidade prática é bem diferente. O desafio aos estudantes culminou na apresentação de projetos, individuais ou em grupo, sendo que três foram premiados, como estímulo para que de fato sejam desenvolvidos. Dentre os 6 ganhadores (um grupo de 4 estudantes latino-americanas e dois projetos individuais), dois brasileiros: Fabrício Pamplona e Joana Balardin, revelando o bom desempenho da trupe brasileira de estudantes (os resumos de todos os projetos podem ser consultados aqui).

A escola foi organizada em formato de internato intensivo, por isso a escolha de um lugar tão remoto como o deserto do Atacama. A idéia é manter palestrantes e alunos, jovens e velhos, europeus, latino-americanos e asiáticos todos juntos não somente durante as palestras e discussões oficiais, mas também nos momentos informais, como refeições, horários livres e também durante o fim de semana. Os temas abordados na escola incluíram linguagem, leitura, aprendizagem da matemática, alfabetização, distúrbios de aprendizagem (principalmente dislexia), bilingualismo, linguagem de sinais, programas de computador para estimular aprendizagem, atenção, sono, memórias, o impacto de videogames de ação na aprendizagem, entre vários outros.

Talvez das interações nas ocasiões informais tenham surgido os maiores momentos de aprendizagem, o que é relevante para as pesquisas em educação: não aprendemos somente quando estamos na sala de aula! Pessoalmente, posso destacar três grandes momentos que ocorreram na informalidade propiciada pela escola: uma verdadeira aula de Jacques Mehler sobre tópicos variados em ciências, da LTP à aprendizagem em golfinhos, dada a apenas eu e mais um estudante numa tarde na jacuzzi; um par de reuniões individuais que tive com Marcus Raichle, para melhor entender as bases neurofisiológicas da fMRI e um jantar tomando vinho com Robert Stickgold e discutindo tópicos como sonhos, psicodélicos, consciência e também sobre o sistema de publicação e financiamento de pesquisas. Em outro contexto, como o usual em cursos e congressos, onde todos se dispersam após a formalidade das palestras, estas ocasiões teriam sido praticamente impossíveis. No Atacama, não havia muita opção para as pessoas se dispersarem. Após as aulas, praticar um pouco de esporte (pouco, dada a altitude de 2450 m e a baixíssima humidade local) e depois retornar ao hotel antes da temperatura cair bruscamente na ausência do sol, e então aproveitar a janta com os demais participantes do evento, que se seguia por animadas rodas de conversa, música e vinho ao redor das fogueiras do hotel Kunza.

Os organizadores deixaram bem claro que trata-se de um plano amplo, ousado, inovador e, porque não, revolucionário: repetir a reunião durante 20 anos, para que o diálogo entre neurocientistas e educadores se amplie, aprofunde e consolide. Quem sabe após tanto tempo, os frutos da semente plantada em 2007 já não estejam sendo colhidos na prática? A expectativa é que participantes retornem, não necessariamente todo ano, mas de maneira rotativa, abrindo espaço para novos alunos e palestrantes a cada ano. Na perspectiva abrangente e de longo prazo, os alunos foram muito consultados e suas opiniões verdadeiramente levadas em conta. Dentre as principais destaco a sugestão de vários alunos de que sejam abordados diversos métodos/filosofias de ensino, de que haja maior participação de educadores, tanto na platéia quanto entre os palestrantes (ecoando as palavras da Declaração de Santiago) e que seja construída uma base sólida de comunicação dos resultados e temas das escolas, possivelmente por meio do site, a ser reformulado para permitir maior interação e divulgação mais ampla, em todo o mundo.

Ao final da segunda semana, éramos todos sorrisos e agradecimentos mútuos, com grande expectativa sobre o próximo encontro, na Argentina, em 2012. Interessados, inscrevam-se e participem!

eduardo schenberg é doutor em neurociências (USP). Atualmente trabalha como pesquisador de pós-doutorado na UNIFESP e jornalista científico freelancer. Teve sua jornada científica estimulada pela participação na LA School, da qual pretende participar novamente no futuro.

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