O livro egoísta

logo1Meu amigo Marcelo foi assaltado. Roubaram sua mochila e, dentro, seu notebook. Mal deu a notícia, arrasado, veio me falar, naquele tom de “tenho uma notícia ruim pra você”, que meu livro estava na mochila. Na hora achei tão pouco frente à perda dele, disse: “que isso, besteira pensar nisso agora”. Confesso, não consegui dizer um desapegado “tudo bem, deixa pra lá, é só um livro”. Afinal de contas é O Gene Egoísta, escrito pelo zoólogo Richard Dawkins. Nele Dawkins defende serem os genes a unidade elementar da evolução, e os seres vivos um meio para estes se perpetuarem. É um livro importante para mim, fiz diversas anotações nele. Mas logo percebi que o livro passou ainda pelas mãos do Adriano. Três pessoas o leram. “Cumpriu sua sina”, brinquei. “Fez mais do que muitos livros fazem” brincou também o Marcelo. É hoje meta ambiciosa para eles.

Na manhã seguinte penso no caso e lembro do livro. Imagino seu “destino final” na mão dos ladrões. Primeiro, a cena fácil do livro sendo jogado em qualquer lugar, perdido para sempre. Depois, uma cena mais improvável, onde um dos assaltantes folheia e lê alguns pedaços soltos. Comecei então a rever a ligação entre tudo isso, crime, violência, livros, educação: uma pessoa estuda, precisa se precaver todos os dias para sair na rua e poder estudar, perde seu livro/computador para um cara que tem uma arma mas não tem perspectivas.

Quando lidos, e o conhecimento é transmitido e refinado, os livros prestam-se como símbolo de progresso. Mas quando estacionam, seja na mão de criminosos que o são porque talvez não tenham sido incentivados a fazer algo mais produtivo como ler livros, ou na mão de pessoas que não foram educadas para ler e talvez tenham virado massa de manobra, ou em prateleiras muito bonitas e muito inacessíveis… é sinal de que alguma coisa está errada. E com o tempo começa a ficar óbvio até demais: é mais fácil deixar o notebook na gaveta trancada do que se arriscar a levá-lo para casa. Simplesmente levá-lo para casa.

No final, foi impossível não arriscar um jogo de palavras, algo como “Meu livro não quis mais dividir seu conhecimento. Egoísta, ele.”

Mas que bobagem a minha, livros não podem ser egoístas.

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