Ciência Psicodélica no século XXI

Psicodélico – Termo cunhado pelo psiquiatra britânico Humphry Osmond, em carta ao escritor e amigo Aldous Huxley, unindo os termos gregos “ψυχή” (psyche, mind) e “δήλος” (delos, manifesting), resultando em “Que manifesta a mente”

Eles estão de volta à bancada. Depois do uso disseminado pelas massas beatniks e hippies nos anos 60 nos EUA e da forte repressão que se seguiu em todo o mundo, os psicodélicos finalmente reencontraram seu rumo médico-científico, que sofreu muito mais com a proibição do que o uso ilegal por artistas, músicos, psiconautas, curandeiros, xamãs e aventureiros em geral. A escalada científica das substâncias encabeçadas pelo LSD, provavelmente a molécula mais famosa do mundo, fica evidente se examinarmos apenas alguns acontecimentos marcantes da primeira década do admirável século novo: os simpósios psicodélicos que rolaram em Basel, na Suíça; em 2006 comemorando o centenário de Albert Hofmann, pai do LSD e identificador da psilocina e psilocibina, e novamente em 2008, ano em que Hofmann faleceu aos 102 anos. Esta escalada conta também com a publicação de dois artigos surpreendentes pela equipe do pesquisador Roland Griffiths (Johns Hopkins) mostrando que a experiência controlada com psilocibina é capaz de evocar experiências místicas que mudam por completo a vida dos voluntários (Psychopharmacology, 2006 vol. 187 p. 268) e cujos efeitos puderam ser estatisticamente verificados em um estudo com os mesmos sujeitos 14 meses após a experiência com o princípio ativo dos cogumelos mágicos (Journal of Psychopharmacology, 2008 vol. 22 p. 621). Nada que os hippies, beatniks, curandeiros, xamãs e psiconautas não soubessem há décadas (em alguns casos até séculos). Este resultado também já havia sido demontrado em Harvard no início dos anos 60, na famosa tese de doutorado em religião defendida por Walther Pahnke, antes da polêmica expulsão de Tim Leary e Richard Alpert (Ram Dass), que viria a catapultá-los como pais da contracultura psicodélica nos anos seguintes. Ainda assim, re-evidenciar o fato (re-search) com os mais rigorosos e criteriosos métodos da chamada ciência hard-core moderna e publicá-los em revistas de alto impacto é pra chacoalhar mesmo os mais materialistas e reducionistas da área. Pra quem gosta de acompanhar assuntos quando estes chegam ao topo, os psicodélicos já estão lá: no fim de 2009 saiu, pela primeira vez em décadas, um artigo publicado na Science com a palavra “hallucinogen”: a identificação do receptor Sigma-1 como alvo do DMT (Science, 2009 vol. 323 p. 934), princípio ativo de diversas plantas xamânicas da amazônia, sendo a principal uma das duas que formam a combinação conhecida como ayahuasca, ou yagé.

Mas não é só isso. A neurociência que se prepare. Os tempos de abrir a cabeça estão apenas começando. A escalada psicodélica nos laboratórios, básicos e clínicos, consagrou-se no mês de Abril de 2010 na Califórnia, berço do movimento contra-cultura dos anos 60. Foi entre os dias 15 e 18 que a MAPS, Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos, conseguiu reunir em San José, próximo de São Francisco, cerca de mil interessados no ramo, de várias partes do mundo. A chegada no congresso já deixava claro que se tratava de um evento ímpar. Hippies de roupas bizarras e cabelos coloridos, dreads e tatuagens dividiam espaço nos auditórios e nos ambientes a céu aberto com pesquisadores engravatados, estudantes, repórteres, médicos e muita gente descontraída. A conferência foi co-organizada pelas instituições parceiras da MAPS: o Conselho sobre Práticas Espirituais (CSP), o Heffter Research Institute e a Beckeley Foundation.

Coquetel de abertura da conferência "Ciência psicodélica no século XXI"

O congresso contou com mais de 90 palestrantes apresentando toda sorte de experimentos e propostas em três salas simultaneamente. Dentre as atrações principais pode-se destacar a presença de Charles Grob (UCLA), pioneiro no estudo do uso de psicodélicos para aliviar o sofrimento de pacientes que se aproximam, de fato, da morte; o trabalho de Michael Mithoefer com MDMA (o princípio ativo do ecstasy), que já se encontra em fase clínica II com autorização da FDA americana; a presença do bioquímico David Nichols (Purdue University, Heffter Research Institute), uma das principais figuras da pesquisa psicodélica em todos os tempos; o médico criador e propagador da medicina integrativa Andrew Weil (University of Arizona) e o encerramento feito pelo psiquiatra tcheco Stanislav Grof (California Institute of Integral Studies – CIIS), chamado de o poderoso-chefão da psicodelia por ninguém menos que o próprio Hofmann. Também chamaram atenção os pioneiros da área que estiveram presentes: Ralph Metzner, James Fadiman e Ram Dass (por problemas de saúde, apenas em vídeo-conferência que lotou duas salas e o jardim); o casal de rogue-chemists Alexander “Sasha” Shulgin e sua esposa Ann Shulgin (autores de PIHKAL e TIHKAL) bem como os expositores do Erowid e o artista transcendental Alex Grey, que estreiou um quadro em jantar beneficente em homenagem aos Shulgins.

The Shulgin's and Their Alchemical Angels

The Shulgin's and Their Alchemical Angels

As novidades apresentadas foram várias, e vale destacar o trabalho brasileiro na chamada Ayahuasca Track, que dominou uma das três salas do evento. Coordenada pela antropóloga brasileira Beatriz Labate, a aya track ganhou muita atenção e contou com palestra de dois brasileiros: Luís Fernando Tófoli (Universidade Federal do Ceará, União do Vegetal) e Paulo Cesar Ribeiro Barbosa (Universidade Estadual de Santa Cruz), bem como do colaborador americano Brian Anderson (Stanford University) e vários estrangeiros interessados no assunto. Foram abordados os aspectos psicológicos, fenomenológicos, simbólicos e até experimentos recentes com EEG e planos de experimentos com fMRI, a acontecerem em breve. Tomados coletivamente, os resultados mostram de forma inequívoca que a ayahuasca é segura, mesmo quando consumida de maneira regular por muitos e muitos anos, não causando danos a saúde e melhorando indicadores de saúde psicológica individual, coletiva e de relações sociais e familiares, na grande maioria dos casos. A excessão fica aos casos de antecedentes psicóticos e propensão a distúrbios mentais, nos quais o chá pode desencadear surtos psiquiátricos latentes.

O evento deixou claro, assim como os últimos artigos publicados e a dúzia (pelo menos) que está no prelo, que a ciência psicodélica está aí para ficar. Longe da abordagem inconsequente do uso maciço e indiscriminado de tempos passados, a idéia agora está mais consciente e madura. De acordo com Rick Doblin, presidente e fundador da MAPS: “Hoje a cultura é mais aberta e a contracultura mais paciente”.

As principais linhas de pesquisa que já contam com inflorecências são:

–       O uso de MDMA na prática clínica, associado a psicoterapia e acompanhamento psicológico para o tratamento de Transtorno do Estresse Pós-Traumático e Transtorno Obsessivo Compulsivo (PTSD e OCD, nas siglas em inglês). O primeiro artigo foi publicado dia 19 de julho, demonstrando que 80% dos sujeitos com PTSD por uma média de 19 anos tratados com MDMA melhoraram, contra apenas 25% no grupo placebo (J. Psychopharmacol DOI: 10.1177/0269881110378371). O próximo passo será tratar veteranos do Iraque, Afeganistão e Vietnam;

–       O uso de psilocibina em doses adequadas e ambientes controlados para aliviar o sofrimento de pacientes com câncer terminal;

–       O uso de psilocibina para a indução de estados místicos, espirituais e transcendentais (Psychopharmacology, 2006 vol. 187 p. 268, Journal of Psychopharmacology, 2008 vol. 22 p. 621);

–       A descoberta de que doses diminutas (menores do que a dose psicoativa) de DOI, análogo sintético do LSD, podem interferir com o sistema imune e a resposta inflamatória, abrindo avenidas inéditas para tratamento de desordens alérgicas e doenças autoimunes, como há muito tempo é relatado na comunidade psicodélica e outrora desacreditado (J. Pharmacol. Expt. Therapeutics vol. 327 p. 316);

–       O uso de LSD para as mesmas finalidades já testadas com a psilocibina, pesquisa que atualmente encontra-se em fase inicial com o trabalho de Peter Gasser, MD, na Suíça;

A abordagem adotada até o momento é de evitar as áreas e substâncias mais polêmicas, como é o caso do LSD e os estudos sobre psicodélicos e consciência. Evita-se assim atiçar os setores mais conservadores da sociedade, que poderiam propor novas ofensivas proibicionistas. Esta estratégia permite evitar também confrontos diretos com a poderosa malha articulada da indústria farmacêutica. O motivo é simples: a MAPS é uma fundação sem fins lucrativos (assim como as instituições co-organizadoras) e as drogas psicodélicas são off-patent. Ou seja, nenhuma empresa possui nem pode requerer patente destas substâncias. Assim sendo, tratamentos eficazes com estas moléculas ou plantas/cogumelos poderiam representar uma ameaça ao lucro das farmacêuticas, caso venha a ser demonstrado, por exemplo, que umas poucas doses de determinado psicodélico durante algumas semanas trate a depressão, uma das doenças que mais gera lucros nos tempos atuais e cujo tratamento é extremamente prolongado. Se por um lado a promessa é de tratamentos baratos e disponíveis a todos, por outro o desinteresse da indústria causa dificuldades de arrecadar fundos, sendo doações a estas instituições sempre bem vindas. Mantendo foco em doenças raras ou sem tratamento corrente, foi encontrado, com ajuda crucial de ativismo por parte dos próprios pacientes, que os cogumelos psiclocibe são extremamente eficazes no tratamento das cluster-headaches, uma condição que mais se assemelha a convulsões do que a dores de cabeça como a maioria de nós conhece. A doença não tem outro tratamento conhecido, sendo que alguns pacientes chegam a cometer suicídio para encerrar o tormento…

Além de novas (e melhores) terapias

Se já não bastasse estar sendo comprovado que os psicodélicos possuem de fato diversos potenciais clínico-terapêuticos e baixo risco e toxicidade quando usados de maneira apropriada, as pesquisas começam a trazer a tona àquilo que os hippies enxergaram há décadas. Os resultados de fato prometem uma revolução, tanto conceitual nas neurociências como na prática clínica e na sociedade em geral.

Os estudos farmacológicos com psicodélicos têm como principal entrave não mais o proibicionismo, como pode-se observar pelo crescente número de laboratórios e pesquisadores que obtiveram licensas governamentais em variados países (EUA, Suíça, Israel, Alemanha…), mas sim os paradigmas kuhnianos vigentes na farmacologia e na clínica médica. Os psicodélicos, de acordo com David Nichols, representam um problema para a farmacologia atual. Em primeiro lugar, porque são substâncias de diversas estruturas químicas, nem sempre semelhantes. As duas principais categorias são as triptaminas (DMT, psilocibina, LSD, etc) e as fenetilaminas (Mescalina etc), substâncias com a menor toxicidade conhecida, estando muito abaixo da maioria das drogas atualmente prescritas na prática clínica (para excelente revisão ver Pharmacology and Therapeutics, 2004 vol. 101 p. 131). Mas existem excessões controversas, como a salvinorina A, princípio ativo da poderosa erva xamânica Salvia divinorum, um ligante opióide. Em segundo lugar, a ação dos psicodélicos, em especial no uso das plantas in natura, desafia a idéia de princípio ativo e de seletividade/afinidade droga-receptor, conceitos importantes e enraizados no pensamento farmacológico corrente. A ayahuasca, por exemplo, combina um inibidor da MAO presente no cipó Banisteriopsis caapi com o DMT presente nas folhas de outra planta, a Psychotria viridis, para ser ativa por via oral. Entretanto, mas também possuem propriedades importantes as harminas e harmalinas presentes no chá. O exemplo de diversidade de ação farmacológica mais extremo provavelmente é o LSD, substância que é psicoativa em diminutas doses, que cabem na ponta dum alfinete (na ordem de microgramas, enquanto a maioria dos agentes conhecidos é efetivo apenas em doses centenas de vezes maiores, de miligramas em diante). O LSD possui seletividade muito baixa, sendo ativo em pelo menos 13 receptores diferentes, incluindo uma grande variedade de serotonérgicos e dopaminérgicos.

David Nichols fala sobre a variedade de receptores aos quais se ligam os psicodélicos

Por fim, já entrando no terreno da prática clínica, os experimentos e terapias psicodélicas desafiam o modelo médico atual do paciente-médico-comprimido-casa. O efeito não se encontra somente na ação farmacológica, mas também no ambiente, nas espectativas, intenções, medos, receios. O que a tempos denomina-se set and setting na cultura psicodélica e que a milênios é praticado seriamente por curandeiros e xamãs, da Sibéria ao Peru. De acordo com Andrew Weil: “Drogas não têm potencial espiritual. Pessoas têm”.

Alguns exemplos talvez ilustrem melhor esta situação: no caso das pesquisas com pacientes próximos da morte, a abordagem com psilocibina não visava o tratamento da doença em si, mas da ansiedade e da perda de qualidade de vida associadas ao processo. Isto vai na contramão da medicina atualmente praticada, que perdeu o foco na saúde e qualidade de vida e desviou-se para o prolongamento da vida a todo custo, por vezes causando mais danos do que oferecendo soluções, como na recusa da sociedade em diversos países em permitir a eutanásia. Isso está tão entranhado em nossa cultura que os pesquisadores tiveram de ser muito delicados e agir cuidadosamente para deixar claro aos pacientes voluntários de que não se tratava de curar o câncer, mas de oferecer uma nova perspectiva perante ao fato e à proximidade da morte.

Na pesquisa básica, os experimentos com os receptores serotonérgicos onde atuam os psicodélicos (principalmente o 5HT2A) revelaram que existe um mecanismo de ação farmacológica hoje conhecido como seletividade funcional (“functional selectivity”), no qual diferentes substâncias, ao se ligarem a um mesmo sítio de um mesmo receptor, podem ativar vias intracelulares distintas. Isto contraria um dos princípios chave da farmacologia moderna, que diz que “um receptor desencadeia uma resposta celular”. De acordo com Dave Nichols, este fato é, por si só, motivo para que se reescrevam todos os livros didáticos de farmacologia.

No que diz respeito às neurociências, os psicodélicos estão disponíveis como ferramentas inigualáveis para o estudo da consciência, permitindo alterá-la de maneira reproduzível e controlada em ambientes de laboratório. Combinado com modernas técnicas de neuroimagem e eletrofisiologia, o ramo promete mudar nossa compreensão do cérebro e, por que não, de nós mesmos?

Para saber mais:

Andrew Weil @ MAPS 2010 – O futuro das pesquisas com psicodélicos e maconha (disponível com legendas em en e pt_br)

A experiência cósmica de Stan Grof

James Fadiman – Possibilidades positivas para os psicodélicos

A Terapia de Annie com Psilocibina

Novos Horizontes – conferência em NY, setembro 2009

Stan Grof – Pesquisas Psicodélicas: Passado, presente e futuro

Eduardo Schenberg é biomédico, mestre em psicofarmacologia e um quase-doutor em neurociências. É um dos fundadores do plantandoconsciência, iniciativa dedicada à catalização de um futuro consciente e sustentável.

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