Leitura Neurobiológica da “Frequencia da Vontade de Fazer Sexo” do Estudo da Vida Sexual do Brasileiro (EVSB)

logo1Em novembro de 2002 foi realizado em 13 estados brasileiros (Bahia, Ceará, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, Santa Catarina e São Paulo) o Estudo da Vida Sexual do Brasileiro, sob a coordenação da Dra Carmita Abdo, que junto com sua equipe multidisciplinar entrevistou 7103 indivíduos maiores de 18 anos e, com base nas respostas fornecidas às 87 questões do questionário, evidenciou os hábitos de vida e de tendências, preferências e práticas sexuais de nosso país.

Uma dessas questões dizia respeito à frequência da vontade de fazer sexo. Aos participantes foi dito que deveriam assinalar apenas uma, dentre as 5 alternativas: Várias Vezes por Dia; Uma vez todos os dias; Algumas vezes na semana; Algumas vezes no mês; Em situações Especiais.

Os resultados demonstraram que: os homens apresentaram índices 2 vezes maiores que as mulheres nas categorias: “Várias vezes por dia” e “Uma vez todos os dias”. As mulheres apresentaram índice relativamente maior em relação aos homens na categoria “Algumas vezes na Semana” e um índice bem maior na categoria “Uma vez ao mês”. Isso indica que a maioria dos homens (54,1%) experimenta a vontade de fazer sexo frequentemente, enquanto que a maioria das mulheres (71,3%) experimenta a vontade de fazer sexo numa frequência menor.

Há alguma condição biológica que explique essa diferença no comportamento sexual?

Sim. Uma das diferenças principais é estrutural. O hipotálamo e a amígdala esquerda, são estruturas diretamente relacionadas ao comportamento sexual. O dimorfismo da amígdala e do hipotálamo está por trás das diferenças no apetite sexual, e talvez até da maior importância que os homens dão a estímulos visuais, comparados às mulheres.

Os homens possuem um número maior de neurônios tanto no núcleo póstero-dorsal da amígdala medial (pdMED) quanto no núcleo intersticial da estria terminal (BST), que são áreas diretamente relacionadas ao desejo sexual.

Para os homens, qualquer alteração na genitália está automaticamente ligada a um sentimento prazeroso. Para as mulheres, a alteração na genitália nem sempre está ligada a sentimentos prazerosos. Essa menor comunicação feminina entre a alteração autônoma da genitália e os mecanismos cerebrais que controlam o impulso sexual fazem com que elas tenham menos desejo sexual que os homens.

Outras das diferenças têm fundo hormonal. Os homens produzem cerca de 10 a 20 vezes mais testosterona que as mulheres, e este é um hormônio fundamental no interesse sexual e na excitação.

Outras das causas são os dois neuropeptídeos conhecidos como Ocitocina e Vasopressina. A vasopressina é fabricada pela testosterona, e a ocitocina pelo estrogênio. Ambos, homens e mulheres, produzem esses dois peptídeos.

As mulheres liberam mais ocitocina que os homens durante a excitação e o orgasmo. Mas tanto nos homens quanto nas mulheres, a ocitocina está relacionada a contrações musculares intensas e o desejo sexual. Contudo, nos homens, um outro hormônio – vasopressina – parece agir durante a fase da ereção peniana. A Vasopressina também está associada à persistência masculina na relação sexual. A ocitocina é mais relacionada à ligação afetiva entre o casal.

Uma outra atividade da vasopressina diz respeito ao sentimento de hostilidade. Seus neurônios são em menor número nas mulheres, do que nos homens. A hostilidade é um sentimento que facilita o desligamento de uma relação e, por isso, uma maior hostilidade no homem poderia beneficiar sua ida embora em busca de outra mulher, enquanto que na mulher a hostilidade a faria desejar menos relações (um princípio bastante anti-evolucionista). Uma maior concentração de vasopressina é percebida em mulheres após a separação – quando elas manifestam sentimentos de raiva – e também durante os primeiros meses de nascimento do filho – quando ela tem que estar mais atenta aos perigos, para protegê-lo. Nestas fases, o desejo sexual diminui. Por isso que quando as mulheres estão irritadas – ou seja, com mais vasopressina – o desejo sexual diminui. Uma dica científica para os namorados que já “avançaram para o próximo estágio da relação” e que pretendem comemorar mais um ano juntos em 2010: as mulheres precisam de climas que estimulem sua ocitocina – calma, romance, etc. – ao mesmo tempo em que diminuam sua vasopressina. Por isso, o cavalheirismo e a segurança percebida pela mulher com relação a um homem pode facilitar sua excitação sexual, proporcionando uma noite muito agradável para ambos.

Estas são as principais evidências neurobiológicas que explicam a diferença de gênero no comportamento sexual.

Thales Coutinho, acadêmico do 4º ano do curso de Psicologia e responsável pelo website de divulgação científica: http://www.psye.com.br

Referências:

  1. ABDO, Carmita. Estudo da Vida Sexual do Brasileiro. São Paulo: Bregantini, 2004.
  2. ABDO, Carmita. Descobrimento Sexual do Brasil: para curiosos e estudiosos. São Paulo: Summus, 2004.
  3. FISHER, Helen. Por que amamos: a natureza e a química do amor romântico. Rio de Janeiro: Record, 2006.
  4. HERCULANO-HOUZEL, Suzana. O cérebro em transformação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.
  5. HILLER, Janice. Gender Differences in sexual motivation. JMHG, vol. 2, nº 3, 2005.
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