2000 anos de fenômenos subjetivos da visão: O testamento de Joseph Plateau

Leia como Joseph Plateau, precursor cego da técnica cinematográfica, sobrevoa 2000 anos de fenomenologia sensorial em uma bibliografia monumental.

Joseph Plateau (Joseph Antoine Ferdinand Plateau, Bruxelas, 1801 – Ghent, 1883) era um desses cientistas com mais interesses e talento do que tempo.  Viveu décadas turbulentas. Quando garoto, ouviu os canhões que derrotaram Napoleão em Waterloo e redesenharam a Europa. Viveu a independência do Brasil e, mais tarde, da própria pátria, a Bélgica. Era colega contemporâneo de Faraday e nasceu no mesmo ano que Fechner. Hoje, 125 anos depois da sua morte, ele é lembrado principalmente por contribuições na física, matemática e fisiologia óptica. Com a invenção do “fenakistiscópio“, um aparelho mecânico para a apresentação estroboscópica de imagens desenhadas, ele é reconhecido como um dos fundadores da técnica e arte da animação. O disco giratório também serviu para uma variedade de experimentos sobre a percepção de cores e luminosidade. Da dissertação de doutorado (uma obra de mestre de… 27 páginas!) até o fim da vida, era um estudioso árduo da sensação subjetiva, como pós-imagens ou “irradiação”, nome dado naquela época ao fenônemo da expansão subjetiva de áreas luminosas contra um fundo preto. Em 1829, deu a prova cabal da dedicação à ciência: em uma tentativa imprudente de obter uma impressão persistente de pós-imagem, olhou diretamente para o sol durante o que devem ter sido 25 segundos dolorosos.  Uma retinite solar deixou-o cego durante dias. Aos 43 anos, a visão de Plateau começou a se deteriorar, desta vez de maneira lenta e irreversível. Muitos, inclusive o próprio Plateau, acusaram o experimento incauto de 15 anos antes pela perda da visão. Porém, a doença que provavelmente causou a cegueira do Plateau era uveíte crônica, sem nenhuma relação com a retinite solar da juventude.

De qualquer forma, a cegueira não impediu Plateau de revolucionar, mesmo na própria área da deficiência, a percepção visual. Contou com a ajuda da esposa, do gênro, do filho, da irmã e dos colegas dedicados para executar experimentos, fazer observações e declamar artigos. Em 1878, Plateau, com 78 anos, tinha perdido a visão já fazia 34 anos. Nesse mesmo ano foi publicada uma bibliografia anotada sobre mais de 2000 anos de observações em fenomenologia sensorial:

Plateau, J. (1878). Bibliographie analytique des principaux phénomènes subjectifs de la vision, depuis les temps anciens jusqu’à la fin du XVIIIe siècle. Suivie d’une bibliographie simple pour la partie écoulée du siècle actuel. Mémoires de l’Académie Royale des Sciences, des Lettres et des Beaux-Arts de Belgique, 42.

[Bibliografia analítica dos principais fenômenos subjetivos da visão, dos tempos antigos até ao fim do século XVIII. Seguida de uma bibliografia simples para a parte já passada deste século.]

Como encontrar uma publicação em um ‘Mémoires’ da Academia Réal da Bélgica, de 1878 ainda, 80 anos antes do Atomium em Bruxelas, quando nem da Torre Eiffel ainda se falava…? Felizmente, uma reprodução está livremente disponível no site DigiZeitschriften.de. O site oferece acesso a reproduções das ‘Mémoires’ belgas (desde 1777!), que compõem um testemunho fascinante da maneira pela qual o mundo se revelava para os cientistas, além de outros volumes do século XVIII. Mesmo para quem não lê bem o francês, vale a pena folhear a obra do Plateau e se maravilhar com a amplidão da bibliografia, que começa com Aristóteles. O autor, com a ajuda da esposa, consultou os textos originais em francês, italiano, inglês, alemão e latim, e comenta cada referência. Esta bibliografia anotada é um tesouro sem igual para quem estuda a visão básica e gosta de consultar os grandes pensadores da história.

Capa da "Bibliographie Analytique".

Capa da "Bibliographie Analytique".

É de um interesse anedótico/biográfico a introdução para a terceira seção (“Imagens que sucedem a observação de objetos de alto brilho ou até de objetos brancos bem iluminados”), que contém uma advertência, que se traduz mais ou menos assim:

Os experimentos constituindo o objeto desta terceira seção são perigosos; foi por causa de um experimento imprudente deste gênero que se desenvolveu o germe de uma doença que no final me privou completamente da visão. Então, não posso exagerar em avertir os físicos e os fisiologistas para se absterem de experiências semelhantes, que têm uma importância mínima em comparação aos maus que podem causar.

Bem lembrado.

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