A pós-graduação produtivista e o processo de alienação. [i]

Por John Araujo (1)

Qual o real papel da pós-graduação? Formar cidadão capaz de transformar a sociedade, ou simplesmente produzir artigos? Neste texto, discuto que a opção oficial tem sido pela segunda alternativa; porém, a consequência desta escolha está sendo a produção de um sistema composto por orientadores e orientandos alienados.

A pós-graduação pode ser analisada sobre diversos olhares, tais como o da agência de fomento, o do(a) gestor(a) (pró-reitoria e coordenação), o do(a) orientador(a), o do(a) orientando(a) e o da sociedade. Seria ideal se todos os olhares fossem próximos (quase iguais), e se todos tivessem o mesmo objetivo, pois conforme Paulo Freire defende, todo processo educacional tem o objetivo de formar cidadão capaz de transformar a sociedade.

Para mim a pós-graduação brasileira tem cada vez mais se distanciado dos ensinamentos de Paulo Freire e rapidamente tem assumido uma perspectiva capitalista. Ou seja, a pós-graduação no Brasil está se assemelhando a uma linha de montagem, em que nós (orientadores e orientandos) temos as mesmas funções de um trabalhador em uma linha de produção, sendo os produtos finais de nossa fábrica educacional, o programa de pós-graduação, a tese e os artigos derivados.

Mas onde realmente está a semelhança entre os dois: uma linha de montagem de uma fábrica e uma formação em pós-graduação? A semelhança está no fenômeno de alienação.[ii] No processo capitalista de uma linha de produção, cada operário executa apenas uma parte do processo de produção, sem ter tido participação nas decisões sobre os objetivos da produção e sobre a real necessidade social do produto final. Desta forma ele não domina o processo que leva ao resultado final, além disso, ele está limitado pelo salário.

Através das ações das agências de fomento e em parte dos gestores, a pós-graduação toma iniciativas inspiradas no modelo produtivista. Hoje temos um sistema de avaliação dos programas de pós-graduação baseado no número de produtos finais e no tempo de produção; ou seja, a medida da eficiência passou a ser o número de produtos e o tempo para realiza-los. Estes dois parâmetros passaram a ser as medidas chaves para a eficiência do processo de formação de recursos humanos em nível de pós-graduação. O processo de formação em si não é mais considerado. Alguns justificam que isto é necessário, pois há uma diversidade de processos de formação possíveis. Considero isto uma verdade, mas o que temos visto é que o atual sistema de avaliação está exatamente construindo um único processo de formação, o baseado em fins exclusivamente produtivistas.

Ainda continuo de braços dados a Paulo Freire, considerando que o objetivo da pós-graduação é formar cidadãos capazes de transformar a sociedade, como cabe a qualquer processo educacional. Atualmente, entretanto, há uma confusão, que para mim é proposital, em que alguns leem no lugar de “cidadãos capazes de transformar a sociedade” o “número de publicações”.
E onde está a alienação? Falo de uma alienação que surge no processo de formação em nível de pós-graduação, pois para maximizar os lucros, ou seja, aumentar ou manter o Conceito CAPES dos programas de pós-graduação, presenciamos duas práticas:

1- Orientadores aumentarem o número de pós-graduandos, diversificando seus temas de investigação, e criando uma verdadeira linha de montagem de dados que se transformam em manuscritos. Dessa forma, a alienação surge da incapacidade do orientador dominar em profundidade o todo do processo de formação, e como resultado os produtos finais são de má qualidade ou defeituosos. Uma evidência de que esta alienação no conjunto dos orientados esteja acontecendo são os últimos casos de trabalhos publicados por autores brasileiros que foram retratados  [iii] em decorrência de apresentarem erros grosseiros nas apresentações dos resultados. Na ciência, o manuscrito com defeito é quase sinônimo de fraude ou má conduta.

2- Já o pós-graduando, este vive em um sistema que tem como uma prática comum a divisão e subdivisões do processo de pesquisa e de investigação científica. Nesta estratégia de fatiamento do fazer ciência, fica cabendo à cada pós-graduando apenas uma parte de um todo, e o mesmo fica sem condições de dominar ou conhecer o todo e muitas vezes até o objetivo geral do programa de pesquisa estabelecido pelo orientador. Além disso, está se tornando cada vez comum a prática do pós-graduando fazer parte do seu trabalho em outro laboratório, um laboratório que não o do orientador, as vezes até fora do país. Em alguns exemplos, a análise estatística é feita por outros, tais como outro pós-graduando ou outro pesquisador especializado, e em alguns casos a análise estatística é comprada. Aí surge aquilo que chamo de alienação: o pós-graduando finaliza seu trabalho, publica sua tese, mas não tem domínio das hipóteses, de parte da metodologia ou dos resultados, pois foi outro que fez [iv]. Alguns querem chamar este processo de interdisciplinar, mas eu o chamo de alienação do processo de fazer ciência.

Como reconhecer este processo de alienação entre os pós-graduandos? Para mim, um indicativo está na própria manifestação dos pós-graduandos que se queixam de uma insegurança e ansiedade em decorrência da falta do controle sobre seu próprio trabalho e seu futuro.[v]

Como superar esta alienação? Não tenho todas respostas, tenho sugestões, e gostaria de ouvir os colegas, para que em um próximo comentário possa fazer uma discussão sobre possíveis estratégias para mudar este quadro.
Se atualmente o Brasil precisa de mãos-de-obra especializadas, e se o Brasil precisa urgente de mais doutores, isto não significa somente que o Brasil precise de mais publicações. Mas sim, que nós precisamos de doutores capazes de transformar a realidade brasileira.
Precisamos reconstruir urgentemente o nosso sistema de pós-graduação, ou através do processo de alienação continuaremos como um país desigual e com índices educacionais inaceitáveis para o século XXI.

(1) John Araujo é Médico, Doutor em Neurociência e Comportamento (USP), professor Associado IV da UFRN e pesquisador do CNPq.

 

Notas

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[i] Este texto foi apresentado pela primeira vez durante a arguição da minha mestrando Carolina Carrijo.

[ii] O conceito de alienação aqui apresentado é inspirado em Karl Marx – Manuscritos econômicos filosóficos (1844) e Elementos para a crítica econômica política (1857), (A alienação econômica pode ser descrita de duas formas: o trabalho como (a) atividade fragmentada e como (b) produto apropriado por outros).

[iii] The Journal of Endocrinology has run a correction for a paper by Rui Curi, the Brazilian scientist whose lawyers threatened Science-Fraud.org after the site ran a number of posts critical of Curi’s work. In: http://retractionwatch.wordpress.com/2013/02/28/another-correction-for-rui-curi-whose-legal-threats-helped-force-shutdown-of-science-fraud-site/

[iv] Como diria Marx: “o trabalho como atividade fragmentada”
[v] Veja o comentário de Sérgio Arthuro “Depressão na Pós-Graduação e Pós-doutorado no blog coNeCte http://blog.sbnec.org.br/2012/10/depressao-na-pos-graduacao-e-pos-doutorado/ e o comentário de Isabella Bertelli “Pós-graduação rima com depressão” em http://cienciaemente.blogspot.com.br/2012/11/pos-graduacao-rima-com-depressao.html

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