A interpretação científica dos sonhos

Pesquisadores conseguem decodificar o conteúdo onírico baseados no padrão de atividade cerebral

Sérgio Arthuro (1)

Os sonhos são objeto de discussão desde os tempos mais antigos, mas o estudo científico dos sonhos é relativamente recente. Entretanto, a investigação dos sonhos continua, desde seus primórdios, limitada ao relato subjetivo do sonhador: não temos outra alternativa se não acreditar no que as pessoas falam que sonharam. Finalmente, esse paradigma começa a cair.


Num artigo publicado recentemente na revista Nature, uma equipe de cientistas liderada por Yukiyasu Kamitani do Laboratório ATR de Neurociência Computacional (Kyoto – Japão), usou duas técnicas de registro da atividade cerebral em três sujeitos enquanto os mesmos dormiam. A técnica de Ressonância Magnética Funcional possibilita detectar quais áreas do cérebro estão mais ou menos ativas dependendo do que o sujeito está fazendo ou pensando. A técnica de Eletroencefalografia (eletro = eletricidade, encéfalo = cérebro, grafia = registro) detecta a atividade elétrica dos neurônios da superfície do cérebro, possibilitando saber qual estado de consciência em que se encontra o indivíduo: se está acordado de olhos abertos (ou de olhos fechados), sonolento, dormindo em sono profundo ou em sono REM (do inglês Rapid Eye Movement = movimento rápido dos olhos), que é a fase do sono mais associada aos sonhos.
Os cientistas acordaram os voluntários quando detectavam que os mesmos estavam pegando no sono, sendo que nessa fase é possível também a presença de sonhos. Assim, os relatos dos sonhos foram coletados e posteriormente divididos em 20 categorias, dependo do objeto presente na cena onírica, como um carro, um computador, uma mulher, um homem etc. Posteriormente, Kamitani e sua equipe selecionou fotos representantes de cada categoria e mapeou os cérebros dos participantes de novo, enquanto eles viam as imagens. Os padrões cerebrais dos sujeitos enquanto viam as fotos foram comparados com os registrados durante o sonho, ou seja, antes dos participantes serem acordados.
Segundo Kamitani, “Ao analisar a atividade cerebral durante os nove segundos antes dos sujeitos serem acordados, podemos prever, por exemplo, se um homem está presente ou não no sonho com uma precisão de 75-80%.” Esses resultados foram publicados no encontro anual da Sociedade de Neurociências, em Nova Orleans, no início desta semana. Kamitani e sua equipe tem como planos registrar o mesmo tipo de dados a partir do sono REM, que como dito anteriormente, é o estágio do sono mais associado com os sonhos. Segundo o pesquisador, “Saber mais sobre o conteúdo dos sonhos e como este se relaciona com a atividade do cérebro pode ajudar-nos a compreender a função do sonho.”
Dessa forma, o uso de técnicas sofisticadas de registro da atividade cerebral, bem como de ferramentas matemáticas complexas para análise de dados, permite mapear as áreas do cérebro relacionadas aos nossos sonhos, que são o que temos de mais subjetivo e particular. A tentativa de quantificar os aspectos qualitativos e subjetivos da consciência promove uma interessante discussão interdisciplinar com as áreas:
a) Ética: a equipe de Kamitani já conseguiu observar e reconstruir os padrões cerebrais dos pensamentos (Miyawaki et al., 2008), sendo esse o primeiro passo para que no futuro exista a possibilidade de uma invasão da nossa privacidade mental;
b) Filosófica: trabalhos recentes conseguiram prever uma decisão voluntária (como por exemplo mexer a mão para a direita ou esquerda) antes que a mesma se torne consciente (Soon et al, 2008), o que toca na antiga questão do livre-arbítrio;
c) Jurídica: analisando os padrões da atividade cerebral é possível saber, com um certo grau de certeza, se uma pessoa está dizendo a verdade ou não (Simpson, 2008), o que pode ser usado num tribunal, por exemplo.
Como conclusão, podemos dizer que esses avanços neurocientíficos contribuem enormemente para o entendimento do que chamamos de consciência, sendo esse o maior dos mistérios do universo, e o que nos torna humanos, demasiado humanos… quem viver verá!

(1) Sérgio Arthuro é médico, doutor em Psicobiologia e Divulgador Científico

Sugestões de Leitura
Costandi, M. (2012). Scientists read dreams: Brain scans during sleep can decode visual content of dreams. Nature News, 19 October.
Miyawaki, Y., Uchida, H., Yamashita, O., Sato, M., Morito, Y., Tanabe, H.C., Sadato, N. & Kamitani, Y. (2008). Visual Image Reconstruction from Human Brain Activity using a Combination of Multiscale Local Image Decoders. Neuron, 60, 915-929.
Simpson, J.R. (2008). Functional MRI Lie Detection: Too Good to be True? Journal of the American Academy of Psychiatry Law, 36, 491-8.
Soon, C.S., Brass, M., Heinze, H.J. & Haynes, J.D. (2008). Unconscious determinants of free decisions in the human brain. Nature Neuroscience, 11(5), 543- 5.

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