Um pálido ponto azul

“Não explicar a ciência me parece perverso”

Carl Sagan

Para todos aqueles que além do trabalho diário em sala de aula e laboratórios nos empenhamos para fazer da ciência e do método científico um bem coletivo, o mês de setembro deste ano marcará uma data extremamente representativa. Trinta anos atrás, precisamente num 28 de setembro de 1980, ia ao ar o primeiro capítulo da série Cosmos, do inesquecível Carl Sagan.

Ainda hoje, ao ver alguns episódios da série no Youtube ou na TV Escola, consigo reviver a sensação de encantamento que senti naquele tempo e que me mostraram que eu queria, de alguma forma, fazer parte dessa aventura da ciência que o grande Carl nos revelava.

Sagan nos mostrou através da sua obra –contrariando os estereótipos vigentes- quão espiritualizada pode ser a experiência de sentir e compreender a ciência. Quão profundo pode ser o sentimento de tentar descobrir como o universo funciona através da aceitação inicial de teorias inicialmente capazes de contrariar o bom senso, e a companhia sempre presente do rigoroso ceticismo científico para testá-las.

É dele a melhor definição de ciência que já li:

“Toda vez que fazemos autocrítica, toda vez que testamos nossas idéias no mundo exterior, estamos fazendo ciência. Quando somos indulgentes conosco mesmos e pouco críticos, quando confundimos esperanças e fatos, escorregamos para a pseudociência e a superstição.”

Não é a precisa definição acadêmica que lemos com Popper, Kuhn nem mesmo do “nosso” Nobel  Medawar, e que aprendemos em alguns cursos de pós-graduação. Mas não encontro outra mais adequada quando nosso desejo é que a população entenda o alcance e o espírito científico.

Sagan, talvez como ninguém, compreendeu a necessidade vital do cientista se comprometer e levar a ciência para o público leigo. Como ele mesmo disse, “[como cientista]… Não explicar a ciência me parece perverso”.

Provavelmente não foi o único, mas Sagan também previu na década de 1980 o grande confronto do século 21. Mais crucial que aquele entre pobres e ricos, sul contra norte, o novo contra o velho, o grande confronto (que já ocorre) seria entre a cultura da ciência e formas fundamentalistas de conceber o mundo.

Estamos perdendo esse confronto de lavada. O marketing do fundamentalismo religioso, dos gurus da Nova Era e dos enganadores de sempre, funciona como nunca. Já do lado do racionalismo, a omissão dos cientistas no sentido de defender publicamente a cultura da ciência é alarmante. Pode ser falta de vontade, ou de tempo. Mas preocupa pensar que seja falta de argumentos. Provavelmente, daí seu perceptível desencanto quando quase ao final da vida percebe que…

“A chama da vela escorre. Seu pequeno lago de luz tremula. A escuridão se avoluma. Os demônios começam a se agitar.”

As consequências da omissão da comunidade científica no sentido de lutar pela cultura da ciência já eram evidentes em sua “América” de fim de século 20, e são visíveis hoje em nosso país. O analfabetismo científico da nossa população se manifesta de várias formas, mas provavelmente a mais perversa é a que priva os jovens da possibilidade de se preparar para um mundo dominado pela ciência e a tecnologia. Nossos péssimos resultados nas avaliações PISA-OCDE (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) que colocam nossos jovens entre os últimos no que se refere à capacidade de utilizar o –escasso- conhecimento científico adquirido, já mostram que estamos nos encaminhando para as nada alentadoras previsões que Carl Sagan fez em seu último livro (O mundo assombrado pelos demônios):

“Nós criamos uma civilização global em que os elementos mais cruciais – o transporte, as comunicações e todas as outras indústrias, a agricultura, a medicina, a educação, o entretenimento, a proteção ao meio ambiente e até a importante instituição democrática do voto dependem profundamente da ciência e da tecnologia. Também criamos uma ordem em que quase ninguém compreende a ciência e a tecnologia. É uma receita para o desastre. Podemos escapar ilesos por algum tempo, porém mais cedo ou mais tarde essa mistura inflamável de ignorância e poder vai explodir na nossa cara.”

A universidade pública e a horizontalização do conhecimento científico

Embora sejam louváveis os esforços de alguns professores/cientistas e de algumas instituições nacionais no sentido de lutar pelo letramento científico da sociedade, os esforços geralmente não são institucionalmente valorados. Salvo exceções, nossa Universidade Pública trata essas atividades como um apêndice não demasiado importante da Extensão Universitária (ela mesma a prima pobre do famoso tripé). Após alguns anos como membro do Conselho Universitário de uma das grandes Universidades Públicas deste país, notei, mesmo entre meus pares, que essa atividade de levar cultura científica à população em geral e às crianças em particular através de programas que coloquem a ciência e o cientista em contato direto com professores e alunos do ensino fundamental e médio (programa que deu muito certo na França, por exemplo), dificilmente alcança o nível de prioridade que ela merece. Ouvi várias vezes um “não é nossa função”, o que me levou a questionar –sem resposta- se não é nossa de quem seria?

Nesse contexto, não é de estranhar que o professor/pesquisador não queira destinar horas e horas (fazer divulgação científica bem feita requer muita dedicação e recursos) para uma atividade que não será valorizada na sua progressão vertical ou horizontal. Num sistema dominado por índices e rankings, preocupações deste tipo parece não terem mesmo muito espaço.

Uma proposta a partir da neurociência

Ao divulgar ciência transcendemos os limites da nossa especialidade, mesmo porque mais importante que divulgar a descoberta é divulgar o método que o cientista utilizou para chegar lá. Provavelmente seja essa a grande falha que observamos na divulgação científica que lemos, vemos e ouvimos. A notícia da descoberta espetacular omite o processo. E é o processo quem transforma. Mesmo assim, não podemos deixar de reconhecer que a neurociência, por explorar o que há de mais misterioso, nosso cérebro, é a área que tem talvez o maior potencial para causar fascínio no público.

Assim, aproveitamos este espaço para sugerir à nossa SBNeC um empenho maior no sentido de divulgar à população (que paga nossos salários e nossas pesquisas) a relevância e o alcance das novas descobertas neurocientíficas. Entre outras iniciativas, por que não pensar em elaborar uma exposição interativa e itinerante sobre o cérebro? Por que uma programação como esta –destinada ao público leigo- nos congressos da SBNeC não poderia ser tão relevante quanto a troca de informações científicas entre pares?

Exposições interativas (“hands-on / minds-on”) têm a capacidade de despertar o interesse e desenvolver o fascínio pela ciência. O próprio Carl descobriu que queria ser um cientista ao visitar na sua infância a Féria Mundial de Nova York em 1939. Novos neurocientistas poderiam surgir dessa experiência. Talentos e vocações poderiam ser resgatados do nosso sistema educacional que devido a suas carências estruturais -exceções á parte- parece ser construído de forma a secar de vez a veia criativa da qual a ciência se nutre.

Negar à população a possibilidade de vislumbrar a beleza e o fascínio que nosso cérebro desperta não é apenas perverso, mas é se omitir ante o avanço da ignorância e da desinformação.

Roelf Cruz Rizzolo é professor da UNESP.

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