Feijoada na cabeça: Política internacional, Estabilidade econômica, Olimpíada e… Ciência!

Feijoadada na cabecaResumo: Qual é a imagem que os europeus têm em mente dos Brasileiros? Quais são os ingredientes da feijoada pela qual queremos ser lembrados? Porque nos leitores do fórum científico da SBNeC devemos se preocupar com a olimpíada de 2016? Neste texto vou tentar responder estas e outras questões apresentando uma consideração multifacetada da percepção do Brasil por estrangeiros, seus efeitos sobre a produção de ciência e tecnologia e propor um mecanismo de atuação potencialmente eficaz.

Percepção Diplomática

2Os jornais dos últimos dias estão saturados de reportagens e colunas eufóricas em reação a mais recente conquista do Brasil, a hospedagem das olimpíadas de 2016. Na seqüência é lembrada a vitória da campanha pela Copa de 2014, os jogos Pan-Americanos e são emendadas na serie a estabilidade e resistência à crise econômica global. Estes eventos são interpretados, tanto pela mídia nacional quanto internacional, como um reflexo da evolução do poderio econômico e influência internacional que o Brasil esta ganhando de forma mais acentuada desde 2004, mas também de uma nova percepção do Brasil como pais que tem capacidade intelectual e técnica de organizar mega-eventos e a infraestrutura necessária.

O Brasil esta acumulando riquezas e prestígio através da estabilidade econômica e política, a ponto de temer a perda do “privilégio” de ser considerado um país em desenvolvimento, razão principal de seu recuso ao convite a integrar a Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômicos (OCDE) este ano. Serão essas as principais razões da ascensão de sua influência global? Um insight para a resposta pode advir da observação do caso da maioria absoluta dos países árabes: São monetariamente ricos, de economia estável e previsível e seus governantes são quase eternos. Mesmo assim, sua influencia em é pequena fora do seu limite territorial. Esta constatação intrigante pode ser compreendida ao considerarmos que as forças internacionais são constituídas e movidas a muito mais do que simples volume de moeda em caixa.

O que faz o Brasil diferente? O Brasil soube se relacionar com um grande número de países em todos os continentes habitados, criando laços comerciais, militares ou simplesmente de diplomáticas de alto nível. Estes laços se baseiam em interesses comuns ou na troca de apoios de causas não conflitantes, como é o caso do aumento da produção de biocombustível. O Brasil é respeitado por ter o poder de contar com o apoio de um grande número de países nos diferentes órgãos internacionais. Sua capacidade de ser percebido como pacificador nos grandes conflitos globais e defensor dos países que não são potências globais lhe permite alcançar este respeito diplomático. Junte-se a isto sua mais recente capacidade de executar um programa de estabilidade e fortalecimento econômico em um momento de crise generalizada e as conquistas acima mencionadas aparecem com naturalidade incontestável.

Percepção Geral

3Talvez seja o momento de questionar: O que esta análise política esta fazendo no blog da SBNeC? A ciência em modo geral é concebida pelos acadêmicos como universal, apátrida, onde o autor e país de origem do conhecimento gerado são irrelevantes. Este nobre idealismo não é observado quando é mensura a noção que cidadãos de diferentes nações têm sobre a produção e qualidade da ciência e tecnologia em diferentes países. Fora do mundo diplomático, onde o Brasil é percebido principalmente como um duro negociador e “criador de problemas” para as causas das potências, o país possui o estereótipo de um país de terceiro mundo, repleto de gente pobre, favelas onde moradores vivem em condições desumanas, de trabalho infantil, de florestas e corrupção. País onde a educação é a última prioridade a esta no úla no último lugarnobre idealismo ne e a ciência é de fachada, ou na melhor das hipóteses, de relevância e impacto estritamente local. País onde não se produz tecnologia e sim máquinas, onde não se desenvolve variedades genéticas melhoradas de plantas e sim onde se planta e colhem cana e soja.

Esta imagem não é exclusiva do Brasil. Vários estudos apontam para uma percepção negativa de países em desenvolvimento. Por exemplo, uma pesquisa da Anholt Nation Brands Index, uma empresa americana que registrou a opinião de 20 mil pessoas mundo a fora, mostra que entre 50 das maiores nações, o povo brasileiro é classificado em apreciação geral entre o 20o e 30o lugar. Correspondentemente, os produtos que carregam a marca Made in Brazil são ranqueados em iguais ou piores posições. O aspecto mais bem apreciado do Brasil é o cultural, na qual está em décimo lugar. Estes resultados foram comemorados pela mídia brasileira, pois houve uma melhora discreta em relação a pesquisas anteriores, porém pouco se analisou o significado da discrepância entre as notas nas diferentes modalidades (quem esta curioso em saber o que os Argentinos pensam dos Brasileiros e vice-versa pode entrar no site http://www.simonanholt.com/Research/research-introduction.aspx). O fato é que o Brasil esta sendo visto, popularmente como um país amigo, simpático, acolhedor e alegre, mas um que não deve ser levado a sério quando se considera investimentos financeiros e capacidade tecnológica e intelectual.

Diante deste quadro da percepção do Brasil, é importante registrar sua incoerência com a ocupação do 13º lugar em número de publicações indexadas, ultrapassando a Rússia e Holanda este ano, com o aumento da exportação de software e com o aumento do conteúdo nacional nos carros, ônibus, aviões e máquinas em geral aqui produzidas. Contrasta com o aumento constante da proporção de jovens estudantes, do número absoluto de doutores formados todo ano, do número de Brasileiros pesquisadores atuando em outros países, contrasta com a elaboração e execução de políticas econômicas e industriais complexas e com a formação de gigantes empresariais.

A percepção de pessoas das diferentes nações pode ser visto como um processo cognitivo de categorização de objetos, como argumentaram Papadopoulos e outros em artigo de 1993 no periódico European Advances in Consumer Research. Segundo estes autores, este processo ajuda a delimitar a própria nacionalidade e “preencher” lacunas de informações sobre outras. As pessoas tendem a avaliar outras nações em várias dimensões, como ideologia política, desenvolvimento econômico, geografia e população, raça e cultura. Evidências interessantes são (1) o fato de as pessoas dar maior peso às dimensões nas quais elas se avaliam como superiores e (2) das políticas governamentais correspondentes. Por exemplo, se os norte-americanos vêem positivamente seu poder econômico e política de direitos humanos e mais negativos sua dimensão cultural, os dois primeiros serão enfatizados quando da formação da imagem de países europeus ocidentais. Evidente que este etnocentrismo, chamado também da hipótese da percepção funcional de Tajfel, implica em visões distorcidas das propriedades de diferentes nações, dependendo do país do observador. Este efeito parece mais intenso na medida que consideramos um outro fenômeno, demonstrado por Taormina e Messick em 1983 no Journal of Applied Social Psychology, na qual ocorre um “positivismo” de grupos sociais percebidos como semelhantes. Mas esta percepção de paises pode ser “manipulada”.

Alguns diários internacionais profetizaram esta semana que a realização dos jogos olímpicos fortalecerá o status do Brasil como um país desenvolvido. Os respectivos editores provavelmente não tinham conhecimento do estudo de Eugene Jaffe e Israel Nebenzahl, publicado no livro “Product-Country Images: Impact and Role in International Marketing”, sobre o efeito cognitivo dos jogos olímpicos realizados em Seul no verão de 1988. Mensurando a percepção de sujeitos israelenses antes e depois da exposição televisiva aos jogos, foi constatada uma mudança positiva na imagem da Coréia do Sul em relação à sua capacidade tecnológica.

A distância entre a percepção de um país e a realidade, tanto pelos cidadãos de outros países quanto do próprio, não é surpreendente. Até poucos anos atrás esta percepção não era longe da realidade, sendo o Brasil um país de baixo nível de desenvolvimento na maioria dos setores acadêmicos, produtivos e sociais. As mudanças aqui descritas ocorreram na melhor das hipóteses ao longo de 30 anos, se intensificaram na última década, muito pouco para alterar significativamente um estereótipo construído historicamente na mente das pessoas.

Mais Carne (não água) e Pimenta no Feijão

4Todos os estudos acima expostos sinalizam a importância do modo que cidadãos estrangeiros percebem um país. Mas como “se vende” a marca Brazil, criando uma percepção apreciadora de um país nas mentes? É mais fácil convencer uma centena de diplomatas do poder de influência política de um país do que convencer centenas de milhões de pessoas que o Brasil é produtor de ciência e tecnologia de alto nível. Qual seria o caminho? Talvez o caminho “natural”, na qual o país contribui sua parcela à humanidade, e não aquele liderado por campanhas midiáticas sem credibilidade. De certa forma, não convencional, pode-se aplicar o conceito de “é dando que se recebe”. Neste sentido, podemos apreciar o seguinte roteiro:

  • O primeiro passo pode ser a valorização da produção criteriosa, crítica e original. Este tipo de trabalho possui o maior valor adicional ao conhecimento atual. Se a produção de baixa qualidade é relevante para a formação de cidadãos qualificados, os trabalhos originais executados sem concessões são aqueles verdadeiramente científicos. Este ponto parece óbvio, mas na pratica é de difícil aplicação por ser conflitante com outros fatores. Primeiro, exige concentração de mentes brilhantes e ousados, capazes de enxergar os verdadeiros desafios da humanidade e propor novos paradigmas em vez de seguir na linha comum e segura. Estes recursos humanos são sem dúvida o principal fator determinante de qualquer sucesso acadêmico. Conseqüentemente, neste sentido, um dos primeiros processos que devem ser analisados é o de formação e credenciamento dos pesquisadores. O fenômeno que o curioso estatístico encontrará no Brasil é uma taxa de aprovação beirando os 100% nos exames de qualificação e defesas de doutorado. Para entender a relevância disso para a qualidade da pesquisa e ensino no Brasil, imaginem ser uma empresa de avaliação de risco de crédito que tem certificado como altamente seguros para investimento todos os países que foram avaliar. Qual é o nível de credibilidade que esta “avaliação”? Quais são as causas e conseqüências da aprovação automática de facto de praticamente qualquer aluno de pós-graduação aqui praticada?
  • A produção de alta qualidade será reconhecida como tal no momento que será apresentada nos maiores e mais importantes fóruns internacionais, onde se encontram os mais proeminentes especialistas da área. É necessário que este tipo de trabalhos seja exposto oralmente em grandes conferências, pois o fato de uma pessoa ser convidada a uma conferência nestas ocasiões é por si um credenciamento da qualidade do seu trabalho. Na prática isso implica em interagir constantemente com pessoas de alto prestígio que comumente organizam estes eventos. Além disso, é evidente a necessidade de estar presentes em mais de uma reunião anual nestes fóruns, um requisito dificultado pela limitação burocrática de verbas para participação em eventos científicos por parte das agências de fomento, uma carga horária de aulas excessiva e uma visão corriqueira deste tipo de viagens como sendo uma oportunidade de turismo.
  • Muito se ouve da importância do intercâmbio com outros grupos líderes, especialmente no sentido de estar sempre a par das questões e técnicas chaves e atuais. Mas tem-se que tomar o cuidado de não criar a impressão que o sucesso do trabalho resultante se fundamenta na parte dos não brasileiros. É essencial que os próprios brasileiros apresentem os trabalhos em conferências e que sejam os primeiros autores em parte das publicações. Evidente que esta ordem de autoria deve refletir uma participação envolvente e crítica por parte dos brasileiros, exigindo um alto engajamento e criatividade desde o princípio.
  • A publicação dos trabalhos em periódicos de alto impacto, que o senso comum diria é o primeiro passo para ganhar espaço na comunidade acadêmica, na realidade é quase a última fase. Antecede este estágio todo o trabalho de formações de pesquisadores criativos e metodológicos, formação de grupos nacionais e internacionais que executam projetos integrados e focados em questões na fronteira da ciência e apresentações orais e discussões nos grandes fóruns científicos. Só então é que os revisores das revistas como a Lancet, Cell, Science e Nature recomendam a publicação dos manuscritos recebidos. É ingênuo acreditar que os revisores e editores aceitarão teses e descobertas revolucionarias de pesquisadores anônimos, confiando apenas nas suas palavras. Esta é uma das mais importantes razões porque a imagem do Brasil e da qualidade de sua ciência é da maior importância e o caso do processo de seleção dos laureados com os prêmios Nobel é a radicalização deste paradigma.
  • Encerrado este círculo, que culminou com estas publicações, a repetição desta mesma trajetória é acelerada, ganhando novos convites à participação em projetos de ponta, volumosos financiamentos são aprovados e chovem convites para participar em eventos científicos e entrevistas na média popular. Especificamente, uma significante proporção da produção tecnológica e científica é resultado de grandes projetos apoiados por pesados fundos e empresas norte americanos e europeus que vislumbram aplicações no médio ou longo prazo. Estes fundos investirão seus recursos em qualquer lugar, desde que avaliem as chances de retorno como razoáveis, e é exatamente esta força que pode impulsionar a ciência brasileira, liberando-a das amarras burocráticas do sistema de financiamento governamental.
  • A exposição na mídia popular, em diários e semanais, geralmente nas sessões de ciência e tecnologia, é conseqüência do impacto teórico e prático das descobertas ou desenvolvimento reconhecido pela comunidade científica. Estas reportagens baixam o pesquisador das suas torres de marfim e o exponham aos olhos descrentes de milhões de pessoas que lêem estas reportagens, em geral sem esquecer de citar sua nacionalidade, e eventualmente mudam suas percepções do país de origem.
  • O passo seguinte pode se dividir em duas. Pesquisadores de renome, muitas vezes atraindo prêmios internacionais, comumente criam em torno de si grandes grupos de pesquisa e de formação de novos pesquisadores altamente qualificados. Estes novos centros servem tanto como referência na academia quanto no jornalismo científico. Como exemplo, podemos citar o caso do Prof. Ivan Antonio Izquierdo, um dos mais renomados cientistas no Brasil por suas descobertas na área de memória e que formou em torno de si importantes instituições de pesquisa no Rio Grande do Sul. Curiosamente, nascido na Argentina, ele se mudou para o Brasil com quase 40 anos de idade. A outra vertente é o desenvolvimento de tecnologia até o estágio de produção e comercialização, gerando riquezas numerárias, formação de engenheiros e prestígio e reconhecimento do poder intelectual e engenhoso. Sendo quase um sacrilégio nas universidades brasileiras, muitas vezes visto como não original ou altamente específico e direcionado, o desenvolvimento e aplicação de conhecimento com fins industriais são altamente valorizados em todos os países desenvolvidos. Na contabilidade final, é muito mais caro produzir o conhecimento básico do que aplicar este conhecimento, dando início à fase da coleta dos frutos mundanos.

Neste texto tentou-se apresentar uma perspectiva multidimensional da percepção cognitiva do Brasil que pressupõe uma percepção unificada de aspectos culturais, educacionais, de governabilidade, de economia, tecnologia e de capacidade científica. Esta percepção tem influenciado, e pode dificultar indiretamente a produtividade dos brasileiros, razão da importância de sua discussão e objetivo da identificação de meios de alterar a situação atual. O caminho sugerido acima é incompleto e certamente não se aplicado a todos os casos, como o de ciências aplicadas na qual busca soluções para problemas de características locais, a exemplo da educação e ciências sociais. Acima de tudo, desejou-se enfatizar a importância da ocupação de espaço por brasileiros na comunidade acadêmica internacional, nos fóruns de especialistas, a publicações de artigos científicos, a presença nos meios de comunicação populares, o fato da exportação de produtos genuinamente brasileiros, como fármacos, softwares e carros, gerar riquezas materiais, intelectuais e humanitárias. É desejável e possível alterar no longo prazo a percepção do Brasil na mente dos cidadãos fora do Brasil através da criação de uma feijoada brasileira de ingredientes nobres.

Yossi Zana
Pesquisador do Núcleo de Cognição e Sistemas Complexos – NCSC
Centro de Matemática, Computação e Cognição – CMCC
Universidade Federal do ABC – UFABC
Críticas, correções e comentários são bem vindos: yossi.zana@ufabc.edu.br
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