A neurociência do livre-arbítrio

O livre-arbítrio, apesar de ser umas das questões mais antigas e mais discutidas na filosofia e psicologia, nunca teve muito espaço nas neurociências. Uma das principais causas desta “negligência” por parte dos neurocientistas é a dificuldade de se medir experimentalmente a ação voluntária. Porém, dois artigos publicados recentemente retomam a discussão da fenomenologia da ação. Um deles, escrito por Patrick Haggard, publicado na Nature Neuroscience Reviews, faz uma breve revisão de uma série de estudos e fenômenos ligados ao estudo do livre-arbítrio. O outro, escrito pela filósofa francesa Elisabeth Pacherie, publicado na Cognition, não é tanto uma revisão, mas uma proposta da autora em como dividir e medir diferentes níveis de intenções.

Um dos responsáveis por trazer a discussão sobre o livre-arbítrio de volta à esfera neurocientífica foi Benjamin Libet. Na década de 80, Libet fez uma série de experimentos no qual o voluntário era instruído a pressionar um botão no momento de sua escolha enquanto assistia a um relógio de ponteiro. Ao fim de cada apresentação, o sujeito deveria relatar onde estava o ponteiro do relógio no momento em que ele primeiro sentiu a vontade de realizar a ação. Simultaneamente, eletrodos registravam a atividade eletroencefalográfica do sujeito. Os voluntários diziam, em média, ter a primeira vontade de agir em torno de 200 ms antes da ação. Porém, uma atividade cerebral preparatória, chamada por Libet de Readiness Potential (RP), podia ser registrada em regiões frontais do cérebro até 1 segundo antes da ação motora. Estes resultados foram amplamente discutidos, e até hoje artigos tentam reinterpretar esses achados. Alguns autores encontraram recentemente dados surpreendentes, mostrando que se pode prever a ação de um sujeito até 10 segundos antes dela ocorrer por meio de atividade no córtex pré-frontal e parietal.

O próprio Patrick Haggard continuou com as pesquisas de Libet, mostrando que um outro componente, o Lateralized Readiness Potential (LRP), um potencial de prontidão que se manisfesta no hemisfério contralateral à ação motora, está mais ligado à sensação de intencionalidade do que o próprio RP. Mais recentemente, Haggard começou a estudar como se dá a ligação entre uma ação motora voluntária e a conseqüência sensorial que ela produz. Em seu artigo, Haggard faz uma bela revisão acerca dos circuitos envolvidos na ação voluntária e das patologias que ocorrem quando alguns destes circuitos são lesados. Uma das regiões mais discutidas é a área motora pré-suplementar (pré-SMA), que fica localizada entre as áreas “cognitivas” dos lobos frontais e o córtex motor primário. Esta área parece estar relacionada com a inibição de ações voluntárias. Pacientes com lesões nesta região executam ações eliciadas por estímulos no ambiente automaticamente, como beber um copo d’água unicamente por ele estar lá, mesmo reportando não estar com sede.

Já a Prof. Pacherrie tenta estabelecer uma conexão entre os diferentes fenômenos que chamamos de intenção e de ação voluntária. Por exemplo, neste momento posso descrever três diferentes intenções enquanto escrevo este post. Uma intenção mais distante e talvez mais abstrata é a de publicar este post no blog. Uma segunda intenção, mais próxima, seria a de conseguir articular os conceitos dos artigos e passar uma certa idéia por este texto. Uma terceira intenção seria digitar corretamente as palavras. Quais dessas intenções estariam influenciando mais meu comportamento? Seriam elas interligadas? Depois de alguns anos digitando, já possuo certo treino em datilografar. Será que ainda preciso de intenções para realizar esta ação ou ela ocorre automaticamente? Mesmo eu sentindo que ela ocorre de maneira mais automática, parece que toda vez que cometo um erro ele me chama a atenção e é corrigido. Para responder a essas questões, a Prof. Pacherrie propõe fazer uma divisão dos diferentes níveis de intenção. Após descrever suas concepções sobre intenção Distal, Proximal e Motora, a autora tenta interligar esses três níveis a fim de mostrar a relação entre eles e como um pode influenciar o outro. Mesmo o artigo não sendo uma revisão, como o artigo de Haggard, a autora comenta uma série de experimentos (inclusive do Libet e Haggard) para embasar seu modelo téorico.

Para quem se interessa pelo assunto, são duas leituras que podem introduzir as principais idéias e problemas desta área de pesquisa. Agora cabe apenas a você decidir se vai ou não ler os artigos. Ou será que na verdade isso já foi decidido e seu cérebro ainda não te contou?

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