Neuroprótese estabelece comunicação entre neurônio motor e músculo

Moritz, Perlmutter e Fetz mostram como macacos aprendem a utilizar conexões artificiais diretas de neurônios arbitrários no córtex motor para dirigir músculos em um braço paralisado.


Permitam-me esta hipérbole: não existem limites na plasticidade do cérebro. Em uma carta à Nature, um grupo de pesquisadores da Universidade de Washington, em Seattle, relatam sobre uma nova técnica de reconectar o córtex motor com um músculo depois de uma lesão. Muitos casos de paralisação são a conseqüência de lesões no nível da espinha dorsal que interrompem as comunicações nervosas aferente e eferente entre membros e córtex. Em princípio, reativar o músculo “só” exige o restabelecimento desta linha de comunicação. Outros grupos já tinham obtido sucesso decodificando sinais capturados de populações de neurônios na área motora do cérebro e utilizando estes para stimular determinados músculos eletricamente ou dirigir braços robôticos. De certa maneira, Moritz, Perlmutter e Fetz buscaram simplificar este processo. Em vez de decodificar respostas de populações, eles registraram o potencial de neurônios individuais do córtex motor de macacos nemestrino (macacos-rabo-de-porco). Depois de injetar um anestésico no braço, usaram a resposta neural para estimular com um dispositivo de estimulação elétrica funcional músculos que geram pulsos de movimento. Os macacos conseguiram controlar o torque do pulso com êxito.

Obviamente, já é um resultado importantíssimo. A interface para o registro de células individuais é muito mais simples do que para populações, o que requer cálculos que só podem ser realizados em computadores. Esta neuroprótese compacta promete uma mobilidade real para vítimas de lesões dorsais. Agora considere o que este estudo, como experimento, ensina sobre o poder adaptativo do cérebro. Vejamos os fatos. (1) Os neurônios selecionados não tinham nenhuma relação especial com a controle dos músculos que movimentam o pulso. O único critério de escolha era que as células fossem bem isoladas para facilitar o registro. Qualquer neurônio do cortex motor serve! (2) Os macacos aprendiam a controlar a ativação destes neurônios em uma tarefa de condicionamento operante com biofeedback visual. Embora os animais aprimoraram o controle neural durante uma sessão de prática, o tempo exigido de treino era… menos de 10 minutos. (3) Enquanto a estimulação era incialmente proporcional à taxa de disparo, o macaco facilmente aprendeu a controlar o músculo quando a corrente era inversamente proporcional à ativação neural. Talvez ainda mais impressionante, adquiriu até o controle sobre um par de músculos antagônicos através da taxa de disparo de um único neurônio. Os autores demonstram também que é possível aprender várias conexões, restabelecendo o movimento em vários grupos de músculos simultaneamente.

A plasticidade cerebral certamente tem ganhado muita atenção na comunidade neurocientífica. Estudos como este comprovam que ainda nem conseguimos imaginar a enorme flexibilidade do cérebro; plasticidade não é um simples “hype“.

Leia o relato original em Nature:

Moritz, C. T., Perlmutter, S. I., & Fetz, E. E. (2008). Direct control of paralysed muscles by cortical neurons. Nature, doi:10.1038/nature07418. Publicado online 15/10/2008: http://www.nature.com/nature/journal/vaop/ncurrent/abs/nature07418.html .

ou o artigo sobre este trabalho na Gazeta do Povo.

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2 Comentários

  1. dimas castro
    Enviado em 13 de outubro de 2009 às 13:25 | Permalink

    Senhores Neurocientistas.
    estamos fazendo em Campinas S. P. um trabalho que envolve o uso das microcorrentes e da tecnica de placa inter-ocrusal empacientes com fibromialgia,dor e AVC.
    com estas tecnicas estimulamos a resposta neuronal e temos colhido exelentes resultados.
    gostariamos de poder contar com a Sociedade Brasileira de neurociencia no intuito de nos auxiliar neste trabalho.
    sobre as microcorrentes relatamos que já temos resultados em diferentes areas da saude e que a nivel internacional, o trabalho de Cheng tem justificado ouso da tecnica.
    com apreço Dimas de Castro.

  2. Enviado em 20 de fevereiro de 2010 às 13:28 | Permalink

    A neuroplasticidade pode acontecer em indivíduos de qualquer idade e durante toda a vida.
    Para mantermos nossos neurônios em “bom estado” precisamos exercitá-los a todo momento e usá-los também, pois tudo que não é usado acaba atrofiando.
    “Cultive bons hábitos e seja escravo deles”.
    Aprenda uma atividade nova a cada dia, dando preferência para assuntos que fujam da sua área de domínio, eu por exemplo: depois que me aposentei, procurei novas atividades como computador, música, escrever, viajar, hidroginástica. Elas fazem parte de minha rotina. Tenho certeza que meu cérebro vai demorar para enferrujar.
    O seu cérebro irá agradecer se você não beber, não fumar, veja o nascer e o pôr do sol pelo menos duas vezes por semana, abrace uma árvore, invente uma estória, escreva uma metáfora. com certeza você terá informações para viver melhor.
    Ronaldo Lírio.

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