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	<title>coNeCte &#187; Roelf Cruz Rizzolo</title>
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	<description>Blog da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento</description>
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		<title>Um pálido ponto azul</title>
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		<pubDate>Thu, 08 Jul 2010 00:02:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Roelf Cruz Rizzolo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Neurosfera]]></category>

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										</div>“Não explicar a ciência me parece perverso” Carl Sagan Para todos aqueles que além do trabalho diário em sala de aula e laboratórios nos empenhamos para fazer da ciência e do método científico um bem coletivo, o mês de setembro deste ano marcará uma data extremamente representativa. Trinta anos atrás, precisamente num 28 de setembro [...]]]></description>
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										</div><p style="text-align: right;"><em><a href="http://blog.sbnec.org.br/wp-content/uploads/2010/06/carl-sagan.jpg"><img class="size-full wp-image-2700 alignright" src="http://blog.sbnec.org.br/wp-content/uploads/2010/06/carl-sagan.jpg" alt="" width="328" height="448" /></a></em></p>
<p style="text-align: right;"><em>“Não</em> explicar a ciência me parece perverso”</p>
<p style="text-align: right;">Carl Sagan</p>
<p><!-- 		@page { margin: 2cm } 		P { margin-bottom: 0.21cm } -->Para todos aqueles que além do trabalho diário em sala de aula e laboratórios nos empenhamos para fazer da ciência e do método científico um bem coletivo, o mês de setembro deste ano marcará uma data extremamente representativa. Trinta anos atrás, precisamente num 28 de setembro de 1980, ia ao ar o primeiro capítulo da série Cosmos, do inesquecível Carl Sagan.<span id="more-2697"></span></p>
<p>Ainda hoje, ao ver alguns episódios da série no Youtube ou na TV Escola, consigo reviver a sensação de encantamento que senti naquele tempo e que me mostraram que eu queria, de alguma forma, fazer parte dessa aventura da ciência que o grande Carl nos revelava.</p>
<p>Sagan nos mostrou através da sua obra –contrariando os estereótipos vigentes- quão espiritualizada pode ser a experiência de sentir e compreender a ciência. Quão profundo pode ser o sentimento de tentar descobrir como o universo funciona através da aceitação inicial de teorias inicialmente capazes de contrariar o bom senso, e a companhia sempre presente do rigoroso ceticismo científico para testá-las.</p>
<p>É dele a melhor definição de ciência que já li:</p>
<blockquote><p>“Toda vez que fazemos autocrítica, toda vez que testamos nossas idéias no mundo exterior, estamos fazendo ciência. Quando somos indulgentes conosco mesmos e pouco críticos, quando confundimos esperanças e fatos, escorregamos para a pseudociência e a superstição.”</p></blockquote>
<p>Não é a precisa definição acadêmica que lemos com Popper, Kuhn nem mesmo do &#8220;nosso&#8221; Nobel  Medawar, e que aprendemos em alguns cursos de pós-graduação. Mas não encontro outra mais adequada quando nosso desejo é que a população entenda o alcance e o espírito científico.</p>
<p>Sagan, talvez como ninguém, compreendeu a necessidade vital do cientista se comprometer e levar a ciência para o público leigo. Como ele mesmo disse, “[como cientista]&#8230; <em>Não</em> explicar a ciência me parece perverso”.</p>
<p>Provavelmente não foi o único, mas Sagan também previu na década de 1980 o grande confronto do século 21. Mais crucial que aquele entre pobres e ricos, sul contra norte, o novo contra o velho, o grande confronto (que já ocorre) seria entre a cultura da ciência e formas fundamentalistas de conceber o mundo.</p>
<p>Estamos perdendo esse confronto de lavada. O marketing do fundamentalismo religioso, dos gurus da Nova Era e dos enganadores de sempre, funciona como nunca. Já do lado do racionalismo, a omissão dos cientistas no sentido de defender publicamente a cultura da ciência é alarmante. Pode ser falta de vontade, ou de tempo. Mas preocupa pensar que seja falta de argumentos. Provavelmente, daí seu perceptível desencanto quando quase ao final da vida percebe que&#8230;</p>
<blockquote><p>“A chama da vela escorre. Seu pequeno lago de luz tremula. A escuridão se avoluma. Os demônios começam a se agitar.”</p></blockquote>
<p>As consequências da omissão da comunidade científica no sentido de lutar pela cultura da ciência já eram evidentes em sua “América” de fim de século 20, e são visíveis hoje em nosso país. O analfabetismo científico da nossa população se manifesta de várias formas, mas provavelmente a mais perversa é a que priva os jovens da possibilidade de se preparar para um mundo dominado pela ciência e a tecnologia. Nossos péssimos resultados nas avaliações PISA-OCDE (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) que colocam nossos jovens entre os últimos no que se refere à capacidade de utilizar o –escasso- conhecimento científico adquirido, já mostram que estamos nos encaminhando para as nada alentadoras previsões que Carl Sagan fez em seu último livro (O mundo assombrado pelos demônios):</p>
<blockquote><p>“Nós criamos uma civilização global em que os elementos mais cruciais – o transporte, as comunicações e todas as outras indústrias, a agricultura, a medicina, a educação, o entretenimento, a proteção ao meio ambiente e até a importante instituição democrática do voto dependem profundamente da ciência e da tecnologia. Também criamos uma ordem em que quase ninguém compreende a ciência e a tecnologia. É uma receita para o desastre. Podemos escapar ilesos por algum tempo, porém mais cedo ou mais tarde essa mistura inflamável de ignorância e poder vai explodir na nossa cara.”</p></blockquote>
<p><strong>A universidade pública e a horizontalização do conhecimento científico</strong></p>
<p>Embora sejam louváveis os esforços de alguns professores/cientistas e de algumas instituições nacionais no sentido de lutar pelo letramento científico da sociedade, os esforços geralmente não são institucionalmente valorados. Salvo exceções, nossa Universidade Pública trata essas atividades como um apêndice não demasiado importante da Extensão Universitária (ela mesma a prima pobre do famoso tripé). Após alguns anos como membro do Conselho Universitário de uma das grandes Universidades Públicas deste país, notei, mesmo entre meus pares, que essa atividade de levar cultura científica à população em geral e às crianças em particular através de programas que coloquem a ciência e o cientista em contato direto com professores e alunos do ensino fundamental e médio (programa que deu muito certo na França, por exemplo), dificilmente alcança o nível de prioridade que ela merece. Ouvi várias vezes um “não é nossa função”, o que me levou a questionar –sem resposta- se não é nossa de quem seria?</p>
<p>Nesse contexto, não é de estranhar que o professor/pesquisador não queira destinar horas e horas (fazer divulgação científica bem feita requer muita dedicação e recursos) para uma atividade que não será valorizada na sua progressão vertical ou horizontal. Num sistema dominado por índices e rankings, preocupações deste tipo parece não terem mesmo muito espaço.</p>
<p><strong>Uma proposta a partir da neurociência</strong></p>
<p>Ao divulgar ciência transcendemos os limites da nossa especialidade, mesmo porque mais importante que divulgar a descoberta é divulgar o método que o cientista utilizou para chegar lá. Provavelmente seja essa a grande falha que observamos na divulgação científica que lemos, vemos e ouvimos. A notícia da descoberta espetacular omite o processo. E é o processo quem transforma. Mesmo assim, não podemos deixar de reconhecer que a neurociência, por explorar o que há de mais misterioso, nosso cérebro, é a área que tem talvez o maior potencial para causar fascínio no público.</p>
<p>Assim, aproveitamos este espaço para sugerir à nossa SBNeC um empenho maior no sentido de divulgar à população (que paga nossos salários e nossas pesquisas) a relevância e o alcance das novas descobertas neurocientíficas. Entre outras iniciativas, por que não pensar em elaborar uma exposição interativa e itinerante sobre o cérebro? Por que uma programação como esta –destinada ao público leigo- nos congressos da SBNeC não poderia ser tão relevante quanto a troca de informações científicas entre pares?</p>
<p>Exposições interativas (“hands-on / minds-on”) têm a capacidade de despertar o interesse e desenvolver o fascínio pela ciência. O próprio Carl descobriu que queria ser um cientista ao visitar na sua infância a Féria Mundial de Nova York em 1939. Novos neurocientistas poderiam surgir dessa experiência. Talentos e vocações poderiam ser resgatados do nosso sistema educacional que devido a suas carências estruturais  -exceções á parte- parece ser construído de forma a secar de vez a veia criativa da qual a ciência se nutre.</p>
<p>Negar à população a possibilidade de vislumbrar a beleza e o fascínio que nosso cérebro desperta não é apenas perverso, mas é se omitir ante o avanço da ignorância e da desinformação.</p>
<p>Roelf Cruz Rizzolo é professor da UNESP.</p>
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		<title>A biologia da fé</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Jun 2010 13:55:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Roelf Cruz Rizzolo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Neurociência]]></category>

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										</div><p>Nascemos com a necessidade biológica de acreditar. No início das nossas vidas, o que os adultos nos dizem é lei, fundamentalmente se são adultos importantes em nosso entorno, pais, parentes próximos, líderes do grupo, etc. Devemos ouvir e aprender rapidamente que o fogo queima, que podemos nos afogar no mar, que determinadas plantas são venenosas, que predadores estão à nossa espreita. É uma questão de sobrevivência que compartilhamos com os outros primatas e boa parte dos mamíferos. Essas informações são vitais para nossa sobrevivência e não vale a pena colocá-las em dúvida para testar. A evolução selecionou esse comportamento. Dificilmente você encontrará uma criança de sete anos que seja cética. <span id="more-2410"></span></p>
<p>Isso, é claro, tem seu lado ruim. Se um adulto inventar uma história, a criança a terá como verdadeira. O teor das histórias contadas pelos adultos às crianças varia enormemente. Podem ensinar o valor da tolerância, mas podem também ensinar que nosso vizinho de outra etnia, nacionalidade ou religião é nosso inimigo.</p>
<p>Por exemplo, aproveitando essa característica biológica do cérebro em desenvolvimento, alguns adultos querem transformar crianças em crianças católicas ou muçulmanas, ou judias. Claro que não existem crianças católicas ou evangélicas, ou de qualquer outra religião, da mesma forma que não existem crianças marxistas ou partidárias do liberalismo econômico de Adam Smith. Se isto soou absurdo, deveríamos pensar por que parece sem sentido pensar numa criança marxista e não numa criança católica. Depois de tudo acreditar na luta de classes parece bem mais coerente que acreditar na existência de um homem invisível -que mora no céu- que observa e anota tudo o que ela e todas as pessoas do mundo fazem a cada minuto de cada dia. E ainda que esse homem invisível exige ser amado e obedecido e se ela não o obedecer, amar e seguir, ele a mandará para um lugar terrível embaixo da terra, onde a criança será queimada e torturada mesmo que chore e grite para o resto da eternidade. *</p>
<p>Essa fase onde a criança é completamente permeável ao ensinamento dos mais velhos é lentamente transformada durante o crescimento e o desenvolvimento neurológico normal.</p>
<p>De fato, com o desenvolvimento acontecem duas coisas fundamentais: enriquecimento da experiência individual e o amadurecimento e formação de novas redes neuronais. A experiência individual nos mostra que o mundo é mais complexo que aquele contado pelos adultos, que o mar mata mas também é agradável, que o fogo queima mas é fundamental para a vida, que das plantas venenosas podemos extrair medicinas.</p>
<p>Os humanos somos provavelmente os únicos animais capazes de ultrapassar o nível de conhecimento que nos foi passado pela geração anterior. Ninguém faz isso na natureza como nós. Um camundongo chegará a ser tão inteligente e sabido quanto seus pais, não muito mais que isso. Já nós, graças ao nosso extraordinário cérebro, temos a capacidade de criar rapidamente novo conhecimento e novas estratégias a partir dos ensinamentos que nos foram transmitidos e as experiências individuais adquiridas. E a velocidade com que isso acontece é cada vez maior.</p>
<p>Desenvolvemos também algo fundamental: o pensamento crítico. A capacidade única dos humanos de questionar o conhecimento atual. É através do pensamento crítico que a humanidade avança, reconhece os erros do passado e transforma seu futuro. Por isso é importante que durante a infância e a adolescência – período fundamental para o desenvolvimento cerebral-  o pensamento crítico seja incentivado. Isso deve ser feito tanto na escola quanto em casa. Se a criança não é incentivada a questionar, quando adulta dificilmente terá a capacidade de analisar o mundo de forma a encontrar a saída para os problemas que dia a dia tem que enfrentar.</p>
<p>Como nossa escola fracassa neste aspecto -nosso sistema educacional prioriza a memorização e a “decoreba” em vez do questionamento- o espírito indagador é substituído pela facilidade da resposta pronta. O cérebro não é estimulado para descobrir. Aos poucos perdemos a capacidade mental que permitiu nosso progresso como espécie. Como dizem os estudiosos do cérebro “use it or lose it” (use-o ou perca-o).</p>
<p>Sem estimular o pensamento crítico viramos crianças adultas, ávidas para acreditar em tudo.</p>
<p>Com esse pano de fundo não é de estranhar que aceitemos como verdadeiras histórias sem fundamento, como as relacionadas com o fim do mundo em 2012, ou tratamentos miraculosos baseados em cristais, florais, energias místicas e na lei da atração. E também na justificativa esfarrapada do político corrupto que foi pego com as mãos na massa, mas em quem votamos novamente. Ou no bispo que foi preso com dinheiro camuflado na bíblia mas diz ser destinado à obra de Deus.</p>
<p>Nos anos noventa eu era fã de uma série chamada Arquivo X. A sala do agente Fox Mulder era enfeitada com um pôster com a frase “Eu quero acreditar.” É isso. Poucos colocariam um pôster com a frase “Eu quero conhecer.”</p>
<p>*Minha homenagem póstuma ao grande George Carlin.</p>
<p>Roelf Cruz Rizzolo é professor, pesquisador e divulgador científico da UNESP.</p>
<p>(Uma versão anterior deste artigo foi publicada inicialmente no Jornal Folha da Região (Araçatuba, SP), e na Revista Expressão (ABC e litoral)).</p>
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		<title>Ciência, mentiras e Prexige</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Jun 2009 18:32:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Roelf Cruz Rizzolo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>

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										</div><p>No momento que escrevo esta coluna, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) acaba de proibir a comercialização no Brasil do antiinflamatório Prexige, da Novartis, seguindo o caminho de agências reguladoras da Europa, Austrália, Canadá e outros países.</p>
<p>Esta proibição se soma à de outros antiinflamatórios da mesma família, a família dos &#8220;coxibes&#8221;. Ela é composta também, além do lumiracoxibe (nome do produto ativo do Prexige), pelos celecoxibe (Celebra Pfizer), etoricoxibe (Arcoxia Merck Sharp &amp; Dohme), parecoxibe (Bextra IM/IV Pfizer) rofecoxibe (Vioxx Merck Sharp &amp; Dohme) e o valdecoxibe (Bextra Pfizer). Todos têm em comum que diminuem a inflamação através da inibição de uma substância química produzida pelo nosso corpo, chamada ciclo-oxigenase-2 (ou Cox-2). Dessa família já tinham sido proibidos o rofecoxibe (Vioxx) e o valdecoxibe (Bextra) por terem causado reações adversas graves, inclusive mortes.</p>
<p><span id="more-1149"></span></p>
<p>Inicialmente acreditava-se que inibindo a Cox-2, apenas aspectos negativos da inflamação, como a dor, seriam eliminados. As pesquisas realizadas pela indústria farmacêutica apontavam que os benefícios dessas drogas seriam bem superiores aos possíveis efeitos colaterais. Essa idéia foi vendida com muito sucesso através de campanhas de marketing milionárias, que acabaram por convencer quase todos os médicos e dentistas do mundo sobre a conveniência de ministrar esses medicamentos. Mas em poucos anos, muitos usuários começaram a apresentar problemas graves nos rins, fígado e coração, e alguns vieram a falecer.</p>
<p>O primeiro medicamento dessa família a ser proibido foi o Vioxx®. O laboratório que o fabricava, Merck, foi inclusive processado nos Estados Unidos. Das páginas desse processo, surgem informações que dão uma idéia sobre o grau de manipulação de informações à qual estamos sujeitos. As denúncias partiram de uma das mais prestigiosas revistas de medicina do mundo, o Jama (Journal of the American Medical Association), e quem as faz é nada menos que a Editora Chefe, Catherine D. DeAngelis. É importante esclarecer que o Jama foi várias vezes acusado de proteger a indústria farmacêutica, o que parece afastar objetivos sensacionalistas.</p>
<p>Os artigos foram publicados em julho deste ano. Em um deles, os autores verificaram a prática de &#8220;ghostwriting&#8221; (autoria fantasma). Trata-se de uma prática na qual um cientista é pago para colocar seu nome em um trabalho científico que foi na realidade escrito por outros que, muitas vezes, nem sequer aprecem como autores. Em outras palavras, pesquisadores empregados do laboratório realizaram o estudo sob a supervisão da companhia e na hora de publicar, a empresa paga a um cientista famoso para assinar como autor, que presta (vende) assim seu prestígio acadêmico em benefício do produto. De acordo com a Dra. DeAngelis, infelizmente essa parece ser uma prática comum na indústria farmacêutica.</p>
<p>O segundo artigo é ainda mais grave. Acusa a Merck de ter conhecimento que a administração do Vioxx aumentava os riscos de morte em paciente que faziam uso do medicamento. Mesmo assim, o laboratório entregou à FDA (a Anvisa dos Estados Unidos) documentação que, através de manipulação estatística, minimizava esses riscos. As acusações são extremamente graves, e foram feitas -de acordo com a Dra. De Angelis- por que pela primeira vez o Jama tinha provas concretas sobre as mesmas.</p>
<p>Embora não exista bola de cristal, é presumível que em algum tempo todos os inibidores da Cox-2 venham a ser proibidos. Desde a proibição do Vioxx em 2004, importantes periódicos científicos, como o New England Journal of Medicine, já alertavam para a possibilidade de riscos semelhantes ao Vioxx vierem a ocorrer pelo uso de qualquer &#8220;coxibe&#8221; já que todos agem da mesma forma, bloqueando a Cox-2 que, além do seu envolvimento no processo inflamatório, participa de outros importantes processos biológicos, alguns dos quais, presumivelmente desconhecidos.</p>
<p>Já que nosso sistema de controle e verificação de medicamentos é na melhor das hipóteses precário, seria uma boa medida ficarmos atentos ao que é feito em países que contam com sistemas de farmacovigilância mais aprimorados e eficientes. O lumiracoxibe já tinha sido proibido em 2007 em Austrália, sendo que nem sequer obtivera autorização de comercialização nos Estados Unidos, mas era vendido normalmente no Brasil.</p>
<p>Em relação aos aspectos éticos sobre a participação de médicos e cientistas em esses episódios tão lamentáveis, traduzo as palavras da Dra. DeAngelis: &#8220;&#8230; se nós não fizermos algo, nossos pacientes continuarão a sofrer as conseqüências. Nós continuaremos a ser manipulados. É hora de tomar de volta nossa profissão. Nós abrimos mão dela, ou permitimos que fossa tirada de nós. Agora temos que recuperá-la. Nada disto teria acontecido se nós não tivéssemos cooperado. Assim de simples.&#8221;</p>
<p>Assim de simples.</p>
<p>Fonte: Impugning the Integrity of Medical Science: The Adverse Effects of Industry Influence. Catherine D. DeAngelis, CD e Fontanarosa, PB, Jama. 2008;299:1833-1835.</p>
<p>Ester artigo foi originalmente publicado em 2008 no jornal Folha da Região, Araçatuba, SP.</p>
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		<title>A pílula da inteligência vem aí. Você tomaria?</title>
		<link>http://blog.sbnec.org.br/2009/05/a-pilula-da-inteligencia-vem-ai-voce-tomaria/</link>
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		<pubDate>Mon, 11 May 2009 01:41:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Roelf Cruz Rizzolo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Neurociência]]></category>

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										</div>Imagine uma pílula que não causasse efeitos colaterais, barata, e que depois de tomar seu QI aumentasse vários pontos. Você usaria? Um grupo de cientistas, verdadeiros pesos-pesados na área de neurociência, saúde pública, direito e ética, lançou esta semana um manifesto na prestigiosa revista Nature, pedindo para acelerar as pesquisas -e se possível a liberação [...]]]></description>
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<p>Um grupo de cientistas, verdadeiros pesos-pesados na área de neurociência, saúde pública, direito e ética, lançou esta semana um manifesto na prestigiosa revista Nature, pedindo para acelerar as pesquisas -e se possível a liberação para consumo- de drogas que aumentam a inteligência.</p>
<p>A idéia seria, caso as pesquisas não demonstrem nenhum efeito colateral, que adultos tivessem a liberdade de ingerir livremente essas substâncias, sem nenhum tipo de criminalização.</p>
<p><span id="more-825"></span></p>
<p>Que um grupo de cientistas e juristas desse porte peça a liberação desse tipo de &#8220;doping&#8221; mental pode parecer uma loucura para muitos, mas a leitura atenta do artigo dá algumas pistas sobre os reais motivos.</p>
<p>O fato é que, como veremos, o problema já está colocado na sociedade, e ele exige respostas científicas -que só serão conseguidas mediante muita pesquisa-, e análise dos aspectos éticos por parte da sociedade.</p>
<p>QUESTÃO CIENTÍFICA<br />
Não é de hoje que pesquisadores tentam descobrir medicamentos para tratar doenças cerebrais, como o mal de Alzheimer, a esquizofrenia, o transtorno de déficit de atenção &#8211; hiperatividade (TDAH), o mal de Parkinson, etc.</p>
<p>Muitas dessas doenças provocam danos cognitivos devastadores, e o paciente passa a ter parte de suas atividades mentais comprometidas, tanto na sua capacidade de aprendizado, memorização, compreensão, linguagem, distúrbios de sono, etc.</p>
<p>Nos últimos anos, o uso de algumas drogas como a Ritalina, Adderall, modafinil, donepzil, entre outras, provocaram melhoras importantes no quadro clínico desses pacientes, permitindo uma notável recuperação na qualidade de vida. Entretanto, algumas dessas drogas passaram a ser consumidas (ilegalmente ou sem prescrição) por indivíduos sadios, os quais também descreveram melhoras no desempenho intelectual.</p>
<p>Pesquisas mostram que aproximadamente 7% dos alunos universitários dos Estados Unidos já consomem essas substâncias, e em alguns campi, o consumo atinge 25% dos estudantes.</p>
<p>Entretanto, como esses medicamentos são recentes ainda não existem suficientes estudos que nos permitam saber quais os efeitos colaterais do se uso a longo prazo, principalmente quando ingeridos por indivíduos sadios. Não há estudos que avaliem ao certo quanto melhor o cérebro funciona, quanto aumenta nosso QI, nem os efeitos dessas drogas sobre o cérebro -em formação- de crianças e adolescentes.</p>
<p>Tampouco se sabe se o uso desses compostos provoca apenas uma melhora temporária na capacidade cognitiva, ou se as alterações aumentam de fato a capacidade de aprender, através de mudanças permanentes da organização cerebral. Mas como a droga já está sendo consumida, o pedido dos cientistas para aumentar as pesquisas (de preferência por instituições públicas) faz todo sentido.</p>
<p>QUESTÃO ÉTICA<br />
O surgimento deste tipo de drogas coloca uma série de desafios éticos que, uma vez respondidas as questões científicas, devem ser analisados pela sociedade. Apenas para citar alguns dos problemas que já estão surgindo:</p>
<p>- O exercito dos Estados Unidos atualmente subministra aos soldados alguns desses medicamentos, sendo que o consumo não pode ser recusado pelos mesmos. +Sob efeito dessas substâncias, os soldados mostram um melhor desempenho, maior capacidade de discriminação, e reflexos mais apurados. As conseqüências são óbvias. Podem vir a se transformar em máquinas de matar extremamente eficientes.</p>
<p>-Seria ético que um empresário passasse a exigir que seus funcionários fizessem uso desses medicamentos para aumentar o desempenho e a produtividade? A exigência formal não seria nem necessária. A maior produtividade de um funcionário que faz uso da droga poderia obrigar seu colega a também ingeri-la para manter seu emprego.</p>
<p>-Seria correto que um colégio, para melhorar o desempenho escolar dos alunos, incentivasse o uso desses medicamentos? Insano? É bem provável que muitas escolas já estejam fazendo isso com a Ritalina, alegando que os alunos não aprendem por que são hiperativos.</p>
<p>-E num vestibular? Seria justo que apenas alguns estudantes utilizassem esse doping mental e outros não? Seria justo que apenas os que podem pagar por esses medicamentos possam fazer uso deles em detrimento dos outros?</p>
<p>-Caso não sejam observados efeitos colaterais importantes, quais seriam as conseqüências globais para a sociedade se todos os indivíduos tivéssemos acesso a drogas que nos tornem mais inteligentes?</p>
<p>É isso aí. Parece que o futuro chega cada vez mais rápido. O antídoto para não nos pegar desprevenidos é informação, informação, e mais informação. Ficar mais inteligente mediante o uso de drogas pode parecer antinatural.</p>
<p>Mas não mais antinatural que a roupa que usamos, a casa onde moramos, o carro que nos transporta, a medicação que tomamos ao longo da nossa vida para viver mais e melhor, os óculos que estou usando para escrever este artigo, e o papel sobre o qual ele estará escrito amanhã.<br />
Você não acha?</p>
<address>*Roelf Cruz Rizzolo é professor de Anatomia Humana da Unesp, câmpus de Araçatuba, Este artigo foi publicado inicialmente na coluna Ciência do jornal Folha da Região, em Araçatuba, SP</address>
<p>Fonte: Towards responsible use of cognitive-enhancing drugs by the healthy; Nature, doi:10.1038/ 456702a; Published online 7 December 2008; Henry Greely e cols.</p>
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		<title>Estudando o cérebro criminal</title>
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		<pubDate>Thu, 29 Jan 2009 00:51:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Roelf Cruz Rizzolo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Neurociência]]></category>

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										</div><p>Pouco tempo atrás, foi noticiado pela mídia que um grupo de cientistas gaúchos pretendia estudar, mediante modernas técnicas de imagem entre outras, o cérebro de jovens infratores, tentando descobrir a possível existência de alterações neurológicas ou genéticas associadas ao comportamento agressivo. Dias depois, um grupo de mais de cem pessoas, formado fundamentalmente por psicólogos, mas incluindo advogados, antropólogos e educadores, lançaram dura nota*, tentando impedir a realização de projeto. O grupo pegou pesadíssimo, comparando o projeto com &#8220;&#8230; velhas práticas de exclusão e de extermínio.&#8221;, e ainda afirmando coisas como &#8220;&#8230; (o estudo) nos remete às mais arcaicas e retrógradas práticas eugenistas do início do século XX.&#8221;.</p>
<p><span id="more-533"></span></p>
<p>A partir daí, a polêmica foi desatada, com a notícia sendo divulgada inclusive no Fantástico, em rede nacional. O preocupante neste episódio, não é a polêmica e o debate suscitados. É sempre salutar que quando a ciência avança sobre assuntos ainda não muito bem incorporados ao dia a dia da sociedade, esta pare para analisar os aspectos éticos da questão. É assim que tem que funcionar, mesmo por que não existe dentro da metodologia científica nenhum instrumento que nos permita saber o que é ou não é ético. Este dilema deve ser resolvido pelas sociedades e pelos indivíduos, incluindo aqui os indivíduos que fazem e os que não fazem ciência. Quando a sociedade é mais esclarecida graças em parte à existência de um bom e moderno sistema educacional, a ciência avança mais rapidamente. Neste sentido, ciência e democracia compartilham das mesmas necessidades.</p>
<p>Mas a nota de repúdio (e as declarações de alguns dos seus signatários) revela um preocupante desconhecimento sobre o atual nível de desenvolvimento das pesquisas sobre o cérebro humano.</p>
<p>Em países onde educação e ciência são levadas a sério, esse tipo de experimento já é realizado, observando sempre os princípios éticos e legais que regulam a experimentação em seres humanos, baseados na Declaração de Helsinque e submetidos a rigorosa legislação local. Hoje, modernos aparelhos científicos nos permitem ver o cérebro funcionando. Isto tem ajudado a descobrir como funciona o cérebro sadio, o que acontece quando pensamos, calculamos, ouvimos uma melodia. Sabendo o que é &#8220;normal&#8221; temos uma base para comparar o que ocorre em doenças como autismo, Alzheimer, Parkinson, depressão, e tantas outras, e também qual o resultado real de tratamentos e terapias, já que podemos comparar o cérebro antes e depois do tratamento. Já se sabe há muito tempo que algumas alterações cerebrais estão associadas com comportamentos anti-sociais, suicidas, etc. Ter uma ferramenta para diagnosticar estas alterações e oferecer se possível um tratamento para aliviar o sofrimento de quem padece esses problemas está longe de ser um dilema ético.</p>
<p>A nota de repúdio parece também errar ao antever o alcance da pesquisa. Supõem que ao eventualmente ser constatada uma relação biológica entre cérebro e delinqüência, os jovens pesquisados (provenientes da Fase, algo parecido com nossa antiga Febem) ficariam rotulados de por vida. Mas não é isto o que tem acontecido nos países onde esse tipo de estudo tem se desenvolvido. Ao contrário, a existência de componente biológico para o comportamento delitivo está colocando em xeque a própria base da Justiça Criminal e a noção jurídica de culpabilidade. Se o comportamento agressivo é influenciado pelo mau funcionamento cerebral, sobre o qual o infrator não tem domínio, até que ponto o réu é responsável? Ainda, se o jovem cresce em um ambiente de miséria e violência, esta alteração neurológica não poderia ser amplificada e agir como fator predisponente para o crime? Assim, o estudo, em vez de condenar, gera a possibilidade (polêmica) de tratar e absolver.</p>
<p>Enfim, uma coisa é debater com base científica. Nesse sentido, o projeto poderia ser questionado quanto a sua metodologia e alcance. Outra é acusar pesquisadores sérios de compactuar com &#8220;velhas práticas de exclusão e de extermínio&#8221;. Isto é simplesmente um disparate. É julgar e condenar mesmo antes que os caminhos de análise das questões éticas existentes nas universidades (comitês de ética) tenham sido ouvidos.</p>
<p>Com câmaras municipais impedindo a utilização de animais para pesquisa científica e chamando os cientistas de &#8220;rebotalhos da criação&#8221;; com projetos de lei querendo impor o ensino religioso nas escolas; com ministros solicitando a inclusão do criacionismo bíblico (disfarçado de design inteligente) nas aulas de ciência; com professores universitários assinando notas de repúdio cerceadoras da liberdade científica, não podemos deixar de pensar que a ciência está sendo de fato atacada, e às vezes, por quem mais deveria defendê-la. Nesse contexto, o que mais preocupa é a omissão mostrada por universidades e centros de pesquisa, incluindo aqui a imensa maioria de professores e pesquisadores, no sentido de defender mais ativamente a cultura da ciência. Pode ser falta de vontade. Mas preocupa pensar que seja falta de argumentos. Seja qual for o motivo, é bom acordar antes que seja tarde. As trombetas do obscurantismo ecoam no horizonte.</p>
<p>Roelf Cruz Rizzolo é professor de Anatomia Humana da Unesp, câmpus de Araçatuba, Este artigo foi publicado inicialmente na coluna Ciência do jornal Folha da Região, em Araçatuba, SP, 08/03/2008</p>
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		<title>O discreto ateísmo de Einstein</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Dec 2008 15:53:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Roelf Cruz Rizzolo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Neurociência]]></category>

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										</div>“A palavra Deus para mim é nada mais que a expressão e produto da fraqueza humana, a Bíblia é uma coleção de lendas honradas, mas ainda assim primitivas, que são bastante infantis.” Albert Einstein Uma carta do físico Albert Einstein, que parece ter ficado escondida por mais de 50 anos, pode ter jogado uma pá [...]]]></description>
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										</div><p style="0.49cm;"><em>“A palavra Deus para mim é nada mais que a expressão e produto da fraqueza humana, a Bíblia é uma coleção de lendas honradas, mas ainda assim primitivas, que são bastante infantis.”</em></p>
<p>Albert Einstein</p>
<p>Uma carta do físico Albert Einstein, que parece ter ficado escondida por mais de 50 anos, pode ter jogado uma pá de cal sobre o debate sem fim a respeito da “religiosidade” do pai da teoria da relatividade. A frase acima foi extraída dela, e permite entender o porquê de tanta decepção por parte dos defensores de um Einstein religioso.</p>
<p><span id="more-379"></span></p>
<p>A carta de Einstein, escrita em 1954, um ano antes da sua morte, foi uma resposta dirigida a Erich Gutkind, autor do livro “O chamado bíblico para a revolta”. Talvez tivesse pensado Gutkind que o endosso de um grande cientista reforçaria as teses religiosas da sua obra. Na carta, Einstein não apenas deixa clara sua posição em relação a Deus, como também sua posição como judeu: “Para mim, a religião judaica, como todas as outras, é a encarnação de algumas das superstições mais infantis. E o povo judeu, ao qual tenho o prazer de pertencer e com cuja mentalidade tenho grande afinidade, não tem qualquer diferença de qualidade para mim em relação aos outros povos.”</p>
<p>Segundo o jornal britânico The Guardian, a carta, que era desconhecida por alguns dos principais biógrafos do cientista, foi leiloada por 170.000 libras (mais de R$540 mil) no último dia 15 de maio.</p>
<p>Não é de hoje que a suposta religiosidade de Einstein é motivo de debate. Boa parte da mídia e aqueles que pregam uma visão religiosa sempre deram ênfase a alguns aforismos e frases proferidas em público pelo físico alemão que apontavam nesse sentido, enquanto que posições em sentido contrário, expressas geralmente através de cartas particulares, ficavam escondidas. A frase “Ciência sem religião é manca, religião sem ciência é cega” talvez tenha sido a mais explorada. “Deus não joga dados” é outra. Em relação a esta última, hoje fica claro que fora tirada do contexto. No caso, Einstein se referia, de forma bastante irritada, aos pressupostos da física quântica -de seus colegas Niels Bohr, Max Born e outros- na qual Einstein não acreditava muito (evidências posteriores, entretanto, mostraram que Einstein estava errado).</p>
<p>Mas em várias ocasiões a posição de Einstein tinha ficado clara. Também em 1954, respondendo uma carta que lhe fora enviada por um missivista presumivelmente ateu, perguntando se de fato Einstein era, como a mídia americana afirmava, um homem religioso, este respondeu “Foi, claro, uma mentira o que o Sr. leu sobre minhas convicções religiosas, uma mentira que vem sendo sistematicamente repetida. Eu não acredito em um Deus pessoal e nunca neguei isso, ao contrário, tenho expressado isso claramente. Se há algo em mim que pode ser chamado religioso é a ilimitada admiração pela estrutura do universo até onde nossa ciência pode revelá-la.”</p>
<p>Em outra oportunidade, recusando o convite de um rabino para freqüentar a sinagoga, Einstein responde: “Desde o ponto de vista de um padre jesuíta eu sou, claro, e sempre tenho sido, um ateu. Eu tenho dito repetidamente que a idéia de um Deus pessoal é infantil. Você pode me chamar de agnóstico, mas eu não compartilho o espírito de cruzada (crusading spirit) dos ateus profissionais cujo fervor é principalmente devido a um doloroso ato de liberação dos grilhões da doutrinação religiosa que eles receberam na sua juventude. Eu prefiro uma atitude de humildade correspondente com a fraqueza de nossa compreensão intelectual sobre a natureza e nosso ser.”</p>
<p>Independente se esta carta acabará ou não com a controvérsia, é curioso assistir esta relação de contestação e desejo da religião para com a ciência. Quando a ciência, através de evidências e sem nenhum propósito de atacar alguém, diz que a terra tem milhões de anos e não os oito mil e poucos que a Bíblia indica, a ciência não serve. Quando diz que o universo parece ter sido criado bilhões de anos atrás através de uma grande explosão, a partir da qual surgiu todo o resto, contradizendo assim a versão literal do Gênesis, a ciência está errada. Quando a ciência diz que os humanos e todas as outras espécies são fruto de um lento processo de evolução e não de criação, a ciência está absurdamente enganada. Mas quando um cientista eminente manifesta uma posição pessoal pró-religião, ou quando algum experimento científico parece sustentar, mesmo que indiretamente, alguma revelação bíblica, cientista e descoberta assumem um valor inquestionável. Agora a ciência serve, mas apenas este minúsculo fragmento do pensamento científico!</p>
<p>A fé de quem crê não deveria ser posta em dúvida pela opinião pessoal de outro indivíduo, cientista ou não. A fé não se fundamenta em argumentos racionais, assim, não faz sentido utilizar a racionalidade da ciência para sustentá-la. Se as evidências científicas chegam a abalar nossa fé, é porque ela não era tão forte &#8211; e cega &#8211; assim.</p>
<p>Ainda bem!</p>
<p><em>Roelf Cruz Rizzolo é professor de Anatomia Humana da Unesp, câmpus de Araçatuba. Este artigo foi publicado inicialmente na Folha da Região, de Araçatuba.</em></p>
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		<title>Peça, acredite, receba!</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Oct 2008 20:23:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Roelf Cruz Rizzolo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Neurociência]]></category>

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										</div><p><em>Roelf Cruz Rizzolo é professor de Anatomia Humana da Unesp, câmpus de Araçatuba. Este artigo foi publicado inicialmente na Folha da Região, de Araçatuba.</em></p>
<p>O primeiro (e único) livro de auto-ajuda que li, foi &#8220;O poder do pensamento positivo&#8221;, um &#8220;clássico&#8221; no gênero. A idéia por trás do livro era: se você quer alguma coisa, tem que ir atrás. Se não tentar, não vai conseguir. Se tentar pouco, terá alguma chance, mas se tentar muito, suas chances serão bem maiores.</p>
<p>Um professor de matemática não demoraria mais de dez minutos explicando isso aos seus alunos, utilizando apenas uma moeda. Mas Norman Vincent Peale, assim como tantos outros autores do gênero, conseguiu a proeza de escrever mais de 200 páginas desenvolvendo essa idéia tão original.<span id="more-242"></span></p>
<p>De lá para cá, não mudou muita coisa, meia dúzia de chavões filosóficos da nova era, psicologismos de envergonhar qualquer profissional sério, fadinhas, energias cósmicas, inexplicáveis mecanismos quânticos, um bom editor, muito marketing, e temos aí um grande sucesso, com milhares de livros e de ávidos leitores.</p>
<p>O novo fenômeno de auto-ajuda chama-se &#8220;O Segredo&#8221;. Por trás dele, a &#8220;lei da atração&#8221;. De acordo com ela, através de fenômenos quânticos (não perguntem quais, claro), se você pede e acredita, o universo dará um jeito para atender. Um casamento, a cura de uma doença, ou um BMW. É só pedir, acreditar e receber.</p>
<p>Mais uma vez, nessa árdua tarefa de engambelar incautos e desesperados, a mecânica quântica é utilizada sem dó nem piedade. Mas a mecânica quântica é reducionista ao extremo. É ciência pura. Ela trata do comportamento de partículas subatômicas, um comportamento para lá de bizarro e que só pode ser observado em laboratórios altamente especializados. Essas partículas têm a propriedade de se comportarem tanto como partículas ou como onda ao mesmo tempo. Estranhíssimo.</p>
<p>Mas os conceitos da física quântica não se aplicam às estruturas do nosso cotidiano, aquelas visíveis a olho nu, nem as visíveis ao microscópio. É a velha física clássica, tão bem descrita por Newton, a que determina o comportamento dos nossos corpos, planetas, bactérias. Partículas atômicas podem atravessar paredes. Nós, mesmo constituídos por essas mesmas partículas, não.</p>
<p>Ninguém duvida, é claro, que uma atitude otimista em relação à vida cria um ambiente (profissional, familiar, etc.) positivo. Não há nada de &#8220;quântico&#8221; nisso. É apenas comportamento humano.</p>
<p>Mas a mecânica quântica não autoriza afirmar que com nossa mente possamos controlar a realidade física. A idéia de que o mundo ao nosso redor é uma ilusão criada pelo pensamento, é apenas uma deturpação. No filme &#8220;Quem somos nós&#8221;, por exemplo, este engodo é explorado insistentemente.</p>
<p>Quem vende (infelizmente, no sentido real) essa teoria deveria fazer um experimento muito simples: ficar na frente de um trem. Se ele conseguir com seu poder mental se transformar em energia quântica ou coisa parecida, manipulando o mundo físico com seu pensamento, o trem atravessará seu corpo sem problemas. Na teoria isso é possível. Muito drástico? OK.</p>
<p>Poderíamos pedir para ele dar um milhão de marteladas no dedo. Nada muito forte. Se a realidade não passa de uma probabilidade controlada pela mente, pelo menos uma vez em um milhão o martelo atravessará o dedo sem problemas. Por que ninguém quer fazer um experimento tão simples que calaria de uma vez todos os céticos deste mundo?</p>
<p>Entender mecânica quântica é muito, muito difícil. Não apenas para nós, leigos, como também para os físicos. Tanto que um dos grandes pesquisadores do assunto, o cientista Richard Feynman, chegou a declarar &#8220;Acho que posso afirmar com segurança que ninguém compreende a mecânica quântica&#8221;.</p>
<p>De acordo com o grande astrônomo Carl Sagan, esta dificuldade existe porque, antes mesmo de se tentar entender esse tipo de física, é necessário saber muitas outras coisas. Entre estas, ele cita aritmética, geometria euclidiana, cálculo diferencial e integral, equações diferenciais ordinárias e parciais, cálculo vetorial, certas funções especiais da física matemática, álgebra matricial e teoria dos conjuntos. Toda esta bagagem apenas para começar a estudar mecânica quântica.</p>
<p>Isto, claro, não é obstáculo para que os embaucadores de sempre a utilizem para explicar, sem um mínimo de conhecimento, os improváveis mecanismos da homeopatia, das curas energéticas, da astrologia e de tantos outros negócios bem sucedidos, como esta delirante lei da atração.</p>
<p>Enfim leitor. O segredo está mesmo na educação laica e no conhecimento que ela proporciona. É esse conhecimento que nos protege dos falsários e dos oportunistas de plantão. Os da política, da religião, da pseudociência&#8230; Do jeito que a educação anda em nosso país, parece ser este o segredo escondido a sete chaves. Enquanto for assim, será sempre atual a sentença do grande biólogo Richard Dawkins: &#8220;Não há nenhum limite óbvio para a credulidade humana. Somos dóceis vaquinhas ingênuas, vítimas ávidas dos curandeiros e charlatões que mamam e engordam às nossas custas. Há uma verdadeira fortuna à espera de quem quer que se disponha a prostituir a linguagem &#8211; e o milagre &#8211; da ciência&#8221;.</p>
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