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	<title>coNeCte &#187; eduardo schenberg</title>
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		<title>A Neurobiologia do medo e a política de drogas</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Nov 2011 02:53:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>eduardo schenberg</dc:creator>
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										</div><p style="text-align: justify;">É provável que uma das áreas mais prósperas da neurociência atualmente seja a neurobiologia do medo. E uma das políticas menos prósperas de nossos tempos é a proibição arbitrária e intolerante de algumas drogas. E há entre ambas um elo direto, costurado por esta emoção que é crucial para a sobrevivência.<span id="more-4743"></span></p>
<p style="text-align: justify;">De Darwin e seu livro “A expressão das emoções nos homens e nos animais” no final do século XIX até Joseph LeDoux e o “Cérebro Emocional” no final do século XX, muito se escreveu, estudou e pesquisou sobre o tema. E muito justificadamente. O medo é uma das emoções centrais à sobrevivência de um organismo e, por conseqüência, também de grupos e da própria espécie. O medo é central na reação de “luta ou fuga”, onde um animal deve escolher a resposta certa quando se depara com um perigo, sendo o exemplo mais comum um predador. Um único erro pode ser fatal. Logo, é um sistema cerebral rápido e eficiente, que tem grande influência comportamental. Mas nós humanos há muito vivemos de forma que praticamente nunca passamos por esta situação específica. Não encontramos leões com a boca aberta no farol da esquina. Ainda assim, o medo desempenha papel central em nossas vidas e em nossa cultura. Como nos lembra LeDoux em seu livro, a quantidade de palavras que temos para descrever o conceito é muito ilustrativa de sua importância em nossas vidas: alarme, susto, preocupação, apreensão, temor, ansiedade, desespero, pânico, horror, entre muitas outras opções. Ou seja, nós enfrentamos perigos diferentes, mas não menos numerosos ou significativos, do que animais vivendo em ambientes selvagens.</p>
<p style="text-align: justify;">E um dos maiores medos que temos é da violência: assaltos, roubos, sequestros e, claro, tráfico de drogas. A guerra às drogas chegou a um ponto tão assustador – e ineficiente, já que a disponibilidade de drogas nunca foi tão grande – que a maior parte da violência urbana atual está relacionada a drogas e a sua repressão pela polícia. Assim, escutamos diariamente histórias escabrosas envolvendo traficantes, viciados, policiais e afins. O medo de 50 anos atrás, quando proibiram algumas das drogas, só aumentou, e hoje é difícil escapar destas notícias, agora onipresentes nas TVs finas e modernas que estão até em algumas bancas de jornal e em quase todos os restaurantes, lanchonetes e bares. Só que o sistema eficiente de luta ou fuga, resultado de bilhões de anos de evolução, também tem seus limites. Se por um lado ele te protege do perigo, por outro pode se tornar um problema, principalmente quando super estimulado: reações exageradas no sistema cerebral responsável por várias das sensações da lista de LeDoux – centralizado numa estrutura chamada amígdala e suas interconexões na vasta rede neural do cérebro – são a base de vários distúrbios psicológicos e psiquiátricos, como transtornos de ansiedade, fobias, pânico e estresse pós-traumático.</p>
<p style="text-align: justify;">Se por um lado a história da proibição pode ter começado como uma resposta supostamente adequada a um medo real – substâncias psicoativas que podem causar vício, reações violentas e em alguns casos até mesmo a morte &#8211; a outra face da moeda revela que a reação da maioria está desproporcional. Após cinco décadas de repetições quase diárias de informações trágicas sobre drogas e sua proibição, super estimulando nossas amígdalas, não estamos mais com medo das drogas, estamos fóbicos. E fóbico é alguém que tem uma reação muito exagerada a um estímulo que é ameaçador, mas nem tanto quanto parece ao fóbico. Em casos graves, a fobia leva a comportamentos irracionais, e é o que assistimos recentemente na maior universidade do Brasil, por exemplo. Por causa de três estudantes e seus cigarrinhos de Cannabis, a USP virou alvo de ação policial militarizada desproporcional e inadmissível num país democrático. E os estudantes, acuados e assustados, também revelam sua fobia da repressão policial constante. O resultado é lamentável, e já conta com mais de 70 alunos presos, centenas de processos e uma greve geral decretada em assembléia com cerca de 2 mil estudantes. A situação sequer faz sentido do ponto de vista legal, dando ainda mais enfoque à irracionalidade que está em jogo na fobia de nossa sociedade com as drogas: segundo o artigo 28 da lei 11.343/06 o porte de drogas para consumo pessoal não é passível de detenção, pois não oferece danos a terceiros. Ou seja, se nossa atual reação de medo das drogas fosse adequada, se a nossa amígdala coletiva estivesse saudável, três pessoas teriam recebido advertência sobre os efeitos da droga e possivelmente estariam prestando serviços à comunidade e teriam de comparecer a cursos ou programas educativos, enquanto a USP e o resto da sociedade seguiriam seu rumo normal. Mas como acontece nas fobias, pânico e transtornos do estresse, a reação é muito exagerada – nossa amígdala coletiva está inchada, hiperativa, febril &#8211; gerando mais danos e piorando ainda mais o quadro. Após esse episódio, as reações que podem se observar nas redes sociais são, na maioria, igualmente de caráter fóbico, incitando intolerâncias várias e comportamentos antiéticos de apoio à violência da PM contra os jovens, ou destes contra a universidade. O objeto do medo coletivo &#8211; nesse caso a maconha – certamente não oferece mais perigo que esta briga toda. Após mais de quarenta anos de desinformação, sensacionalismos e as famosas “páginas de sangue” sobre esta guerra que está fora de controle, nossa amígdala social está completamente disfuncional e desorientada. Outro indício desta enfermidade coletiva é que nesta semana, anúncios de um novo livro que visa tratar o assunto de um ângulo sério e diferente daquele dos últimos 50 anos foi recusado pelo metrô de São Paulo, numa atitude difícil de justificar. Se notícias da guerra estampam revistas e jornais diariamente há décadas, porque um livro chamado “<a href="http://coletivodar.org/2011/11/metro-de-sp-veta-propaganda-de-livro-sobre-drogas/" target="_blank">O fim da Guerra</a>” (de Denis Russo Burgierman, editora Leya) não pode sequer ser propagandeado pelos meios usuais? Podemos falar a vontade da violência, mas não podemos discutir alternativas para um <em>status quo</em> mais pacífico?</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez a ironia final seja que a maconha, de longe a droga ilícita mais consumida no mundo, possui baixa toxicidade, baixo potencial ao vício e efeitos claros e comprovados na diminuição de muitos dos problemas relacionados a ansiedade, estresse e medo, atuando inclusive na amígdala e suas conexões cerebrais. Portanto, a planta da qual estamos fugindo como loucos poderia ser, se usada moderada e adequadamente, parte da solução por um cérebro coletivo mais equilibrado.</p>
<h3>Eduardo Schenberg, Doutor em Neurociências pela USP, atualmente pesquisador da UNIFESP.</h3>
<p>Apesar da atitude absurda do metrô, o livro será lançado normalmente no dia 28/11 as 19h</p>
<p><img class="aligncenter" src="http://plantandoconsciencia.files.wordpress.com/2011/11/fimdaguerra.jpeg" alt="" width="650" height="944" /></p>
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		<title>Ciências neurais, cognitivas e&#8230; educação?</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Apr 2011 12:39:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>eduardo schenberg</dc:creator>
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										</div><p style="text-align: justify;">Em um breve editorial na <a href="http://www.sciencemag.org/content/317/5843/1293.full?sid=0f839deb-5a9a-43c1-9c13-60014cd56f7a" target="_blank">Science</a> em 2007, John Bruer, presidente da James S. McDonnell Foundation  (JSMF) e Kathryn Hirsh-Pasek, professora na Temple University, contam, resumidamente, os resultados de um encontro no Chile sobre as ciências do cérebro e educação. Na ocasião, políticos, educadores, cientistas e legisladores buscavam uma solução para o complexo campo da educação em “pesquisas baseadas em evidência”. Segundo a dupla, no primeiro dia já ficou claro que as respostas não estavam prontas e que o pensamento dos participantes era enviesado por “mitos pedagógicos baseados em neurociências”. Ou seja, ao invés de trazer respostas, a reunião gerou perguntas: Como um grupo internacional de cientistas pode comunicar que há conhecimento científico de interesse para a educação? Como as neurociências podem se tornar um aspecto, ao invés de ser a força motriz, das recentes discussões sobre educação? Para esclarecer estes e outros tópicos, a reunião culminou na <a href="http://www.jsmf.org/santiagodeclaration/" target="_blank">Declaração de Santiago</a>, documento aberto redigido por cientistas do Chile, Alemanha, França, Holanda, Espanha, Reino Unido e EUA. O documento destaca a importância da aprendizagem em contextos relevantes, da aprendizagem ativa, ao invés de passiva e da necessidade de nos ocuparmos do <em>como</em>, e não apenas com <em>o quê</em> as crianças aprendem. Importante também lembrar, segundo os autores do texto na Science, que educadores e políticos motivados são os usuários finais do conhecimento científico da área, e que portanto os cientistas devem escutar as questões práticas destes consumidores.</p>
<p style="text-align: justify;">Na busca de estabelecer e fomentar esse complexo diálogo, surgiu então a <a href="http://www.laschool4education.com/" target="_blank">Latin American School for Education, Cognitive and Neural Sciences</a>, que teve sua primeira edição entre 7 e 18 de março deste ano, após ser adiada devido ao terremoto que atingiu o Chile em março de 2010.</p>
<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter" src="http://www.laschool4education.com/www/imag/logo.jpg" alt="" width="280" height="300" /><span id="more-3861"></span>Reuniram-se no Atacama uma série de pesquisadores e cientistas para falar desta interface desejável, porém ainda incomum e pouco debatida entre as neurociências e a educação. Patrocinado pela JSMF e pela Universidad de Chile, o encontro foi organizado pela chilena Marcela Peña em compania do argentino Mariano Sigman e do brasileiro Sidarta Ribeiro (com a colaboração de um grupo de estudantes da Universidad de Chile e da equipe da JSMF). A SBNeC apoiou a realização do evento, tendo financiado minha passagem aérea (muito obrigado!) e de mais um estudante, dentre os 6 brasileiros selecionados para o encontro.</p>
<p style="text-align: justify;">O tópico é uma preocupação de longa data da JSMF, que se dedica à diversos aspectos das ciências cognitivas e da educação há décadas. John Bruer é também autor de famoso <a href="http://www.jsmf.org/about/j/education_and_brain.htm" target="_blank">artigo</a> intitulado “Neurociência e educação: uma ponte muito distante”, publicado em 1997. Nele, o presidente da JSMF argumentou que o elo entre a neurociência e a educação ainda estava muito distante, mas poderia ser construído através da psicologia cognitiva, que já dialogava com a educação há 50 anos, e com a neurociência, há pelo menos uma década.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta visão cognitivista se reflete na participação de alguns peso-pesados da área na LA School (apelido carinhoso atribuído pelos participantes): Jacques Mehler, diretor do laboratório de desenvolvimento, linguagem e cognição da Scuola Internazionale Superiore di Studi Avanzati, Trieste, Itália; Marcus Raichle, professor de radiologia, neurologia, neurobiologia e engenharia biomédica na Washington University in St Louis, EUA; Michael Posner, professor emérito da University of Oregon e prof. adjunto de psicologia e psiquiatria no Weill Medical College da University of Cornell, EUA; Robert Stickgold, professor associado de psiquiatria no Beth Israel Deaconess Medical Center e na Harvard Medical School e Stanislas Dehaene, professor da nova cadeira de psicologia cognitiva experimental no Collège de France em Paris (a lista completa de professores e alunos pode ser consultada no site do curso).</p>
<p style="text-align: justify;">Dada a abrangência do tema e a profundidade das perguntas já expostas, não surpreende a característica principal da escola ter sido o desafio de desenvolver um novo campo, ao invés de ensinar os alunos como proceder. Durante todo o tempo foi colocado aos estudantes o desafio de realizar e aprofundar este debate. Para isto, foram frequentes as rodas de discussão, para que os estudantes pudessem ativamente participar opinando, criticando e sugerindo possíveis abordagens nas mais diversas partes do mundo. O contexto sócio-econômico e cultural ocupou grande parte do curso, dado que a escola é na América Latina, mas a maioria dos palestrantes é, ou trabalha em, países economicamente mais desenvolvidos, onde a realidade prática é bem diferente. O desafio aos estudantes culminou na apresentação de projetos, individuais ou em grupo, sendo que três foram premiados, como estímulo para que de fato sejam desenvolvidos. Dentre os 6 ganhadores (um grupo de 4 estudantes latino-americanas e dois projetos individuais), dois brasileiros: Fabrício Pamplona e Joana Balardin, revelando o bom desempenho da trupe brasileira de estudantes (os resumos de todos os projetos podem ser consultados <a href="http://www.laschool4education.com/docs/doc/professor_attachments/2011-04-06_220229-LASchool_Atacama2011_ProjectProposalAbstracts.pdf" target="_blank">aqui</a>).</p>
<p style="text-align: justify;">A escola foi organizada em formato de internato intensivo, por isso a escolha de um lugar tão remoto como o deserto do Atacama. <img class="alignright" src="http://www.hotelkunza.cl/images/stories/mapaubicacionsatelite.jpg" alt="" width="361" height="355" />A idéia é manter palestrantes e alunos, jovens e velhos, europeus, latino-americanos e asiáticos todos juntos não somente durante as palestras e discussões oficiais, mas também nos momentos informais, como refeições, horários livres e também durante o fim de semana. Os temas abordados na escola incluíram linguagem, leitura, aprendizagem da matemática, alfabetização, distúrbios de aprendizagem (principalmente dislexia), bilingualismo, linguagem de sinais, programas de computador para estimular aprendizagem, atenção, sono, memórias, o impacto de videogames de ação na aprendizagem, entre vários outros.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez das interações nas ocasiões informais tenham surgido os maiores momentos de aprendizagem, o que é relevante para as pesquisas em educação: não aprendemos somente quando estamos na sala de aula! Pessoalmente, posso destacar três grandes momentos que ocorreram na informalidade propiciada pela escola: uma verdadeira aula de Jacques Mehler sobre tópicos variados em ciências, da LTP à aprendizagem em golfinhos, dada a apenas eu e mais um estudante numa tarde na jacuzzi; um par de reuniões individuais que tive com Marcus Raichle, para melhor entender as bases neurofisiológicas da fMRI e um jantar tomando vinho com Robert Stickgold e discutindo tópicos como sonhos, psicodélicos, consciência e também sobre o sistema de publicação e financiamento de pesquisas. Em outro contexto, como o usual em cursos e congressos, onde todos se dispersam após a formalidade das palestras, estas ocasiões teriam sido praticamente impossíveis. No Atacama, não havia muita opção para as pessoas se dispersarem. Após as aulas, praticar um pouco de esporte (pouco, dada a altitude de 2450 m e a baixíssima humidade local) e depois retornar ao hotel antes da temperatura cair bruscamente na ausência do sol, e então aproveitar a janta com os demais participantes do evento, que se seguia por animadas rodas de conversa, música e vinho ao redor das fogueiras do hotel Kunza.</p>
<p style="text-align: justify;">Os organizadores deixaram bem claro que trata-se de um plano amplo, ousado, inovador e, porque não, revolucionário: repetir a reunião durante 20 anos, para que o diálogo entre neurocientistas e educadores se amplie, aprofunde e consolide. Quem sabe após tanto tempo, os frutos da semente plantada em 2007 já não estejam sendo colhidos na prática? A expectativa é que participantes retornem, não necessariamente todo ano, mas de maneira rotativa, abrindo espaço para novos alunos e palestrantes a cada ano. Na perspectiva abrangente e de longo prazo, os alunos foram muito consultados e suas opiniões verdadeiramente levadas em conta. Dentre as principais destaco a sugestão de vários alunos de que sejam abordados diversos métodos/filosofias de ensino, de que haja maior participação de educadores, tanto na platéia quanto entre os palestrantes (ecoando as palavras da Declaração de Santiago) e que seja construída uma base sólida de comunicação dos resultados e temas das escolas, possivelmente por meio do site, a ser reformulado para permitir maior interação e divulgação mais ampla, em todo o mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao final da segunda semana, éramos todos sorrisos e agradecimentos mútuos, com grande expectativa sobre o próximo encontro, na Argentina, em 2012. Interessados, inscrevam-se e participem!</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" src="http://www.laschool4education.com/docs/image/school/20110310104930-02.jpg" alt="" width="576" height="383" /></p>
<p style="text-align: justify;">eduardo schenberg é doutor em neurociências (USP). Atualmente trabalha como pesquisador de pós-doutorado na UNIFESP e jornalista científico freelancer. Teve sua jornada científica estimulada pela participação na LA School, da qual pretende participar novamente no futuro.</p>
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		<title>A SBNeC e as drogas</title>
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		<pubDate>Tue, 28 Sep 2010 22:32:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>eduardo schenberg</dc:creator>
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										</div>O debate &#8220;Neurociência e Drogas&#8221; foi certamente um dos pontos altos da última reunião da SBNeC, em Caxambú. Foi gratificante escutar os palestrantes da sessão e a discussão que se seguiu. Incrível ver a sala lotada, acompanhando e participando do debate, que de duas horas programadas, se extendeu a quatro! Prova clara da importância do [...]]]></description>
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										</div><p style="text-align: justify;">O debate &#8220;Neurociência e Drogas&#8221; foi certamente um dos pontos altos da última reunião da SBNeC, em Caxambú. Foi gratificante escutar os palestrantes da sessão e a discussão que se seguiu. Incrível ver a sala lotada, acompanhando e participando do debate, que de duas horas programadas, se extendeu a quatro! Prova clara da importância do tema para as Neurociências&#8230;(e muito além). Como era de se esperar num tema altamente controverso, complexo e abrangente, a discussão saiu do âmbito das neurociências e adentrou áreas como política, sociologia, antropologia etc. Alguns depoimentos da platéia elucidaram o quão educativo foi a discussão ampla, permitindo a muitos obterem acesso a conhecimentos que ignoravam, permitindo-lhes refletir e amadurecer.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-3219"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Mas acho que faltou, ao final, algo prático, concreto, no que diz respeito ao posicionamento da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento com relação ao tema, algo realista e que pudéssemos levar à sociedade, sem que desrespeitemos a opinião individual dos sócios. Gostaria de sugerir que a SBNeC faça um levantamento entre seus sócios, talvez um pleito virtual, para saber se haveria maioria a favor da <strong>SBNeC assinar oficialmente a Declaração de Viena</strong>. O intuito do documento é diminuir os prejuízos da atual &#8220;guerra às drogas&#8221; que vivenciamos globalmente, e que infelizmente vem afetando também o nosso país de maneira seríssima.</p>
<p style="text-align: justify;">A Declaração de Viena é um documento da mais alta seriedade, redigido por organizações científicas e cientistas de diversos países que clamam por políticas de drogas baseadas em evidências, e não em ideologias. A declaração reconhece o fracasso da guerra contra as drogas em reduzir o consumo e a oferta de drogas (são quatro décadas de dados que podem ser analisados cientificamente), elucida muitos dos problemas criados pela proibição e propõe que novas alternativas sejam buscadas com evidências científicas.  A descrição dos próprios criadores da declaração é:  <em> </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8220;A Declaração de Viena é uma declaração que procura melhorar a saúde e a segurança da comunidade ao buscar a incorporação de evidência científica nas políticas de drogas ilícitas. Estamos convidando cientistas, profissionais da saúde e o público para endossar este documento para chamar a atenção dos governos e das agências internacionais à estes problemas e ilustrar que uma reforma da política de drogas é um assunto urgente de significância internacional.&#8221;</em></p>
<p style="text-align: justify;">A Declaração já conta com mais de 16000 assinaturas em poucos meses de existência, e pode ser um instrumento poderoso e eficaz no redesenhamento da política de drogas atual, que tantos danos causa, adicionais aos danos do consumo de drogas per se. Dentre os notórios signatários, temos o ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso.</p>
<p style="text-align: justify;">O texto completo pode ser lido e assinado <a href="http://www.adeclaracaodeviena.com/" target="_blank">aqui </a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.adeclaracaodeviena.com/" target="_blank"></a> Para saber mais:</p>
<p style="text-align: justify;">http://www.youtube.com/watch?v=8_bwh3MS5Z8</p>
<p style="text-align: justify;">http://www.drogasedemocracia.org/</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">saudações</p>
<p style="text-align: justify;">eduardo schenberg, recém doutor em neurociências</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Esperando para fumar</title>
		<link>http://blog.sbnec.org.br/2010/08/reuniao-anual-2010-caxambu-esperando-para-fumar/</link>
		<comments>http://blog.sbnec.org.br/2010/08/reuniao-anual-2010-caxambu-esperando-para-fumar/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 31 Aug 2010 20:44:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>eduardo schenberg</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Neurociência]]></category>
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										</div>Com intuito de fomentar o debate sobre a maconha medicinal e as drogas de maneira geral baseado em evidências, e não em ideologias, PlantandoConsciência e ColetivoDAR apresentarão o premiado documentário norte-americano &#8220;Esperando para Fumar&#8221; (Waiting to Inhale, 2005, 75 min). A sessão será gratuita, com legendas em português, no CineCaxambú (Praça XVI de setembro 34), [...]]]></description>
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										</div><p style="text-align: justify;">Com intuito de fomentar o debate sobre a maconha medicinal e as drogas de maneira geral baseado em evidências, e não em ideologias, <a href="http://www.plantandoconsciencia.org/" target="_self">PlantandoConsciência</a> e <a href="http://coletivodar.wordpress.com/" target="_self">ColetivoDAR</a> apresentarão o premiado documentário norte-americano &#8220;Esperando para Fumar&#8221; (<a href="http://www.waitingtoinhale.org/thefilm.htm" target="_self">Waiting to Inhale</a>, 2005, 75 min). A sessão será gratuita, com legendas em português, no CineCaxambú (Praça XVI de setembro 34), dia 09/09/10 as 21:00, logo após a Assembléia da SBNeC.</p>
<p style="text-align: justify;">A sessão servirá de introdução e material para reflexão para o debate do dia seguinte, sexta-feira, 10/09/10 &#8220;Neurociência e as drogas&#8221;, coordenado por João Menezes (UFRJ), com Dartiu Xavier (UNIFESP), Roberto Lent (UFRJ), Jorge Quillfeldt (UFRGS), Reinaldo Lopes (Folha de SP) e Sidarta Ribeiro (UFRN).</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-3101"></span>Estas iniciativas visam aprofundar a reflexão deste tema de grande relevância nacional e já em andamento neste mesmo <a href="http://blog.sbnec.org.br/2010/07/nota-de-esclarecimento-sbnec-e-a-maconha-4/" target="_self">blog</a> e em outros veículos de comunicação, tanto independentes como empresariais.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://blog.sbnec.org.br/wp-content/uploads/2010/08/Esperando-para-fumar-web.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3102" src="http://blog.sbnec.org.br/wp-content/uploads/2010/08/Esperando-para-fumar-web.jpg" alt="" width="706" height="1045" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Esperando para fumar </em></strong>explora a batalha entre pacientes, médicos, ativistas e o governo dos EUA pela legalização da cannabis medicinal. O Diretor mostra na tela estórias poderosas de indivíduos que não aparecem nas manchetes, nos trazendo para um mundo onde pacientes gravemente doentes são presos em operações armadas por cultivarem a única forma de tratamento para sua dor. Estes pacientes dão relatos marcantes do alívio que a cannabis lhes proporciona para sintomas debilitantes de doenças terminais e questionam por que o governo dos EUA continua resistindo à estudos sobre as propriedades medicinais da cannabis, quando há evidência clínica significante sobre sua eficácia em tratar sintomas do câncer, epilepsia, AIDS, Esclerose Múltipla e glaucoma. Em resposta, o governo argumenta que o movimento para legalizar a maconha medicinal é apenas uma cortina de fumaça para a legalização geral da planta.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">O filme relembra a história da planta no século passado, documentando como seu uso inicial como ingrediente de medicamentos patenteados eventualmente levou à sua proibição em 1937. O filme nos leva além da mitologia dos anos 70 sobre a maconha, para um história muito diferente: a jovem Valerie Corral, co-fundadora da WAMM (Associação de homens e mulheres para maconha medicinal) é arremessada de um acidente de carro para uma posição única na história jurídica dos EUA; Mae Nutt, motivada pela perda de dois filhos por câncer, se torna uma face singular no movimento pela cannabis medicinal; e Irvin Rosenfeld, um jovem sem precedentes criminais com uma rara doença óssea descobre por acidente que maconha é a única coisa que lhe dá algum alívio. O filme segue estas histórias desde seu início até 2005, mostra a escalada do movimento de pais contra as drogas, examina esforços para legalizar a cannabis medicinal sob leis estaduais e federais e explora as diversas motivações por trás da criminalização dos doentes e convalecidos por buscarem tratamento.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">O filme também mostra com exclusividade o primeiro estudo científico de larga escala com maconha medicinal nos últimos 30 anos, realizado na Universidade da Califórnia em São Francisco. Esta pesquisa revolucionária, liderada pelo Dr. Donald Abraham, testa a eficácia da cannabis em aliviar a dor para pacientes com HIV e câncer e adiciona uma excitante nova dinâmica ao debate sobre a legalização. Jed Riffe vai fundo, entrevistando o Dr. Abraham e pacientes participantes do estudo.</p>
<p style="text-align: justify;"><em> </em></p>
<p style="text-align: justify;">Esperando para fumar leva o expectador dos clubes maconheiros alternativos à Suprema Corte dos EUA; dos laboratórios científicos em Israel ao jardins de maconha legalizados em Londres. Inclúi a participação de líderes, peritos e pesquisadores no assunto de todo o mundo, em ambos os lados da controvérsia sobre os potenciais terapêuticos da cannabis. Nos EUA, 13 Estados aprovaram medidas em favor da cannabis medicinal, e a Califórnia irá votar a legalização em novembro deste ano. Entretanto, o cultivo e a posse, por qualquer razão, permanecem ilegais pela lei federal. Pode-se acompanhar a batalha da perspectiva daqueles que serão os maiores afetados pelo resultado final, e examina as decisões subjetivas de quem tem acesso garantido ao tratamento. Este filme não serve como propaganda de uma opinião ou de outra, mas foca em estórias reais e na luta de pessoas de posições opostas deste espectro provocativo. Acima de tudo, Esperando para fumar abre nossos olhos para a situação única de indivíduos envolvidos em um conflito cujos resultados podem definir o limite entre a vida e a morte.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Saudações,</p>
<p>eduardo schenberg, Doutor em neurociências (USP)</p>
<p>Fabrício Pamplona, Doutor em farmacologia (UFSC)</p>
<p>Renato Filev, Doutorando em neurofisiologia (UNIFESP)</p>
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		<title>Ciência Psicodélica no século XXI</title>
		<link>http://blog.sbnec.org.br/2010/07/ciencia-psicodelica-no-seculo-xxi/</link>
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		<pubDate>Tue, 27 Jul 2010 21:25:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>eduardo schenberg</dc:creator>
				<category><![CDATA[Neurosfera]]></category>
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										</div><h3><em>Psicodélico – Termo cunhado pelo psiquiatra britânico Humphry Osmond, em carta ao escritor e amigo Aldous Huxley, unindo os termos gregos “</em>ψυχή” (<em>psyche, mind) e “</em>δήλος<em>” (delos, manifesting), resultando em “Que manifesta a mente”</em></h3>
<p style="text-align: justify;">Eles estão de volta à bancada. Depois do uso disseminado pelas massas beatniks e hippies nos anos 60 nos EUA e da forte repressão que se seguiu em todo o mundo, os psicodélicos finalmente reencontraram seu rumo médico-científico, que sofreu muito mais com a proibição do que o uso ilegal por artistas, músicos, psiconautas, curandeiros, xamãs e aventureiros em geral. A escalada científica das substâncias encabeçadas pelo LSD, provavelmente a molécula mais famosa do mundo, fica evidente se examinarmos apenas alguns acontecimentos marcantes da primeira década do admirável século novo: os <a href="http://www.psychedelic.info/" target="_self">simpósios psicodélicos</a> que rolaram em Basel, na Suíça; em 2006 comemorando o centenário de Albert Hofmann, pai do LSD e identificador da psilocina e psilocibina, e novamente em 2008, ano em que Hofmann faleceu aos 102 anos. Esta escalada conta também com a publicação de dois artigos surpreendentes pela equipe do pesquisador Roland Griffiths (Johns Hopkins) mostrando que a experiência controlada com psilocibina é capaz de evocar experiências místicas que mudam por completo a vida dos voluntários (Psychopharmacology, 2006 vol. 187 p. 268) e cujos efeitos puderam ser estatisticamente verificados em um estudo com os mesmos sujeitos 14 meses após a experiência com o princípio ativo dos cogumelos mágicos (Journal of Psychopharmacology, 2008 vol. 22 p. 621). Nada que os hippies, beatniks, curandeiros, xamãs e psiconautas não soubessem há décadas (em alguns casos até séculos). Este resultado também já havia sido demontrado em Harvard no início dos anos 60, na famosa tese de doutorado em religião defendida por Walther Pahnke, antes da polêmica expulsão de Tim Leary e Richard Alpert (Ram Dass), que viria a catapultá-los como pais da contracultura psicodélica nos anos seguintes. Ainda assim, re-evidenciar o fato (<em>re-search</em>) com os mais rigorosos e criteriosos métodos da chamada ciência <em>hard-core</em> moderna e publicá-los em revistas de alto impacto é pra chacoalhar mesmo os mais materialistas e reducionistas da área. Pra quem gosta de acompanhar assuntos quando estes chegam ao topo, os psicodélicos já estão lá: no fim de 2009 saiu, pela primeira vez em décadas, um artigo publicado na <span style="text-decoration: underline;">Science</span> com a palavra “hallucinogen”: a identificação do receptor Sigma-1 como alvo do DMT (Science, 2009 vol. 323 p. 934), princípio ativo de diversas plantas xamânicas da amazônia, sendo a principal uma das duas que formam a combinação conhecida como ayahuasca, ou yagé.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas não é só isso. A neurociência que se prepare. Os tempos de abrir a cabeça estão apenas começando. A escalada psicodélica nos laboratórios, básicos e clínicos, consagrou-se no mês de Abril de 2010 na Califórnia, berço do movimento contra-cultura dos anos 60. Foi entre os dias 15 e 18 que a <a href="http://www.maps.org" target="_self">MAPS</a>, Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos, conseguiu reunir em San José, próximo de São Francisco, cerca de mil interessados no ramo, de várias partes do mundo. A chegada no congresso já deixava claro que se tratava de um evento ímpar. Hippies de roupas bizarras e cabelos coloridos, dreads e tatuagens dividiam espaço nos auditórios e nos ambientes a céu aberto com pesquisadores engravatados, estudantes, repórteres, médicos e muita gente descontraída. A conferência foi co-organizada pelas instituições parceiras da MAPS: o Conselho sobre Práticas Espirituais (<a href="http://csp.org/" target="_self">CSP</a>), o <a href="http://www.heffter.org/" target="_self">Heffter Research Institute</a> e a <a href="http://www.beckleyfoundation.org/" target="_self">Beckeley Foundation</a>.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-2828"></span></p>
<p style="text-align: center;">
<div id="attachment_2833" class="wp-caption aligncenter" style="width: 591px"><a href="http://blog.sbnec.org.br/wp-content/uploads/2010/07/MAPS-2010-coquetel.jpg"><img class="size-large wp-image-2833   " src="http://blog.sbnec.org.br/wp-content/uploads/2010/07/MAPS-2010-coquetel-1024x682.jpg" alt="" width="581" height="386" /></a><p class="wp-caption-text">Coquetel de abertura da conferência &quot;Ciência psicodélica no século XXI&quot;</p></div>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">O congresso contou com mais de 90 palestrantes apresentando toda sorte de experimentos e propostas em três salas simultaneamente. Dentre as atrações principais pode-se destacar a presença de Charles Grob (UCLA), pioneiro no estudo do uso de psicodélicos para aliviar o sofrimento de pacientes que se aproximam, de fato, da morte; o trabalho de Michael Mithoefer com MDMA (o princípio ativo do ecstasy), que já se encontra em fase clínica II com autorização da FDA americana; a presença do bioquímico David Nichols (Purdue University, Heffter Research Institute), uma das principais figuras da pesquisa psicodélica em todos os tempos; o médico criador e propagador da medicina integrativa Andrew Weil (University of Arizona) e o encerramento feito pelo psiquiatra tcheco Stanislav Grof (California Institute of Integral Studies &#8211; CIIS), chamado de o poderoso-chefão da psicodelia por ninguém menos que o próprio Hofmann. Também chamaram atenção os pioneiros da área que estiveram presentes: Ralph Metzner, James Fadiman e Ram Dass (por problemas de saúde, apenas em vídeo-conferência que lotou duas salas e o jardim); o casal de <em>rogue-chemists</em> Alexander “Sasha” Shulgin e sua esposa Ann Shulgin (autores de PIHKAL e TIHKAL) bem como os expositores do <a href="http://www.erowid.org" target="_self">Erowid</a> e o artista transcendental <a href="www.cosm.org" target="_self">Alex Grey</a>, que estreiou um quadro em jantar beneficente em homenagem aos Shulgins.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 570px"><img src="http://store.maps.org/mm5/graphics/00000001/alex_ann_sasha.jpg" alt="The Shulgin's and Their Alchemical Angels" width="560" height="697" /><p class="wp-caption-text">The Shulgin&#39;s and Their Alchemical Angels</p></div>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: justify;">As novidades apresentadas foram várias, e vale destacar o trabalho brasileiro na chamada <em>Ayahuasca Track</em>, que dominou uma das três salas do evento. Coordenada pela antropóloga brasileira <a href="http://www.bialabate.net" target="_self">Beatriz Labate</a>, a <em>aya track</em> ganhou muita atenção e contou com palestra de dois brasileiros: Luís Fernando Tófoli (Universidade Federal do Ceará, União do Vegetal) e Paulo Cesar Ribeiro Barbosa (Universidade Estadual de Santa Cruz), bem como do colaborador americano Brian Anderson (Stanford University) e vários estrangeiros interessados no assunto. Foram abordados os aspectos psicológicos, fenomenológicos, simbólicos e até experimentos recentes com EEG e planos de experimentos com fMRI, a acontecerem em breve. Tomados coletivamente, os resultados mostram de forma inequívoca que a ayahuasca é segura, mesmo quando consumida de maneira regular por muitos e muitos anos, não causando danos a saúde e melhorando indicadores de saúde psicológica individual, coletiva e de relações sociais e familiares, na grande maioria dos casos. A excessão fica aos casos de antecedentes psicóticos e propensão a distúrbios mentais, nos quais o chá pode desencadear surtos psiquiátricos latentes.</p>
<p style="text-align: justify;">O evento deixou claro, assim como os últimos artigos publicados e a dúzia (pelo menos) que está no prelo, que a ciência psicodélica está aí para ficar. Longe da abordagem inconsequente do uso maciço e indiscriminado de tempos passados, a idéia agora está mais consciente e madura. De acordo com Rick Doblin, presidente e fundador da MAPS: “<em>Hoje a cultura é mais aberta e a contracultura mais paciente</em>”.</p>
<h3 style="text-align: justify;">As principais linhas de pesquisa que já contam com inflorecências são:</h3>
<p style="text-align: justify;">-       O uso de MDMA na prática clínica, associado a psicoterapia e acompanhamento psicológico para o tratamento de Transtorno do Estresse Pós-Traumático e Transtorno Obsessivo Compulsivo (PTSD e OCD, nas siglas em inglês). O primeiro artigo foi publicado dia 19 de julho, demonstrando que 80% dos sujeitos com PTSD por uma média de 19 anos tratados com MDMA melhoraram, contra apenas 25% no grupo placebo (J. Psychopharmacol DOI: 10.1177/0269881110378371). O próximo passo será tratar veteranos do Iraque, Afeganistão e Vietnam;</p>
<p style="text-align: justify;">-       O uso de psilocibina em doses adequadas e ambientes controlados para aliviar o sofrimento de pacientes com câncer terminal;</p>
<p style="text-align: justify;">-       O uso de psilocibina para a indução de estados místicos, espirituais e transcendentais (Psychopharmacology, 2006 vol. 187 p. 268, Journal of Psychopharmacology, 2008 vol. 22 p. 621);</p>
<p style="text-align: justify;">-       A descoberta de que doses diminutas (menores do que a dose psicoativa) de DOI, análogo sintético do LSD, podem interferir com o sistema imune e a resposta inflamatória, abrindo avenidas inéditas para tratamento de desordens alérgicas e doenças autoimunes, como há muito tempo é relatado na comunidade psicodélica e outrora desacreditado (J. Pharmacol. Expt. Therapeutics vol. 327 p. 316);</p>
<p style="text-align: justify;">-       O uso de LSD para as mesmas finalidades já testadas com a psilocibina, pesquisa que atualmente encontra-se em fase inicial com o trabalho de Peter Gasser, MD, na Suíça;</p>
<p style="text-align: justify;">A abordagem adotada até o momento é de evitar as áreas e substâncias mais polêmicas, como é o caso do LSD e os estudos sobre psicodélicos e consciência. Evita-se assim atiçar os setores mais conservadores da sociedade, que poderiam propor novas ofensivas proibicionistas. Esta estratégia permite evitar também confrontos diretos com a poderosa malha articulada da indústria farmacêutica. O motivo é simples: a MAPS é uma fundação sem fins lucrativos (assim como as instituições co-organizadoras) e as drogas psicodélicas são <em>off-patent</em>. Ou seja, nenhuma empresa possui nem pode requerer patente destas substâncias. Assim sendo, tratamentos eficazes com estas moléculas ou plantas/cogumelos poderiam representar uma ameaça ao lucro das farmacêuticas, caso venha a ser demonstrado, por exemplo, que umas poucas doses de determinado psicodélico durante algumas semanas trate a depressão, uma das doenças que mais gera lucros nos tempos atuais e cujo tratamento é extremamente prolongado. Se por um lado a promessa é de tratamentos baratos e disponíveis a todos, por outro o desinteresse da indústria causa dificuldades de arrecadar fundos, sendo doações a estas instituições sempre bem vindas. Mantendo foco em doenças raras ou sem tratamento corrente, foi encontrado, com ajuda crucial de ativismo por parte dos próprios pacientes, que os cogumelos psiclocibe são extremamente eficazes no tratamento das <a href="http://www.clusterbusters.com/" target="_self"><em>cluster-headaches</em></a>, uma condição que mais se assemelha a convulsões do que a dores de cabeça como a maioria de nós conhece. A doença não tem outro tratamento conhecido, sendo que alguns pacientes chegam a cometer suicídio para encerrar o tormento&#8230;</p>
<h3 style="text-align: justify;"><strong>Além de novas (e melhores) terapias</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">Se já não bastasse estar sendo comprovado que os psicodélicos possuem de fato diversos potenciais clínico-terapêuticos e baixo risco e toxicidade quando usados de maneira apropriada, as pesquisas começam a trazer a tona àquilo que os hippies enxergaram há décadas. Os resultados de fato prometem uma revolução, tanto conceitual nas neurociências como na prática clínica e na sociedade em geral.</p>
<p style="text-align: justify;">Os estudos farmacológicos com psicodélicos têm como principal entrave não mais o proibicionismo, como pode-se observar pelo crescente número de laboratórios e pesquisadores que obtiveram licensas governamentais em variados países (EUA, Suíça, Israel, Alemanha&#8230;), mas sim os paradigmas kuhnianos vigentes na farmacologia e na clínica médica. Os psicodélicos, de acordo com David Nichols, representam um problema para a farmacologia atual. Em primeiro lugar, porque são substâncias de diversas estruturas químicas, nem sempre semelhantes. As duas principais categorias são as triptaminas (DMT, psilocibina, LSD, etc) e as fenetilaminas (Mescalina etc), substâncias com a menor toxicidade conhecida, estando muito abaixo da maioria das drogas atualmente prescritas na prática clínica (para excelente revisão ver Pharmacology and Therapeutics, 2004 vol. 101 p. 131). Mas existem excessões controversas, como a salvinorina A, princípio ativo da poderosa erva xamânica Salvia divinorum, um ligante opióide. Em segundo lugar, a ação dos psicodélicos, em especial no uso das plantas <em>in natura</em>, desafia a idéia de princípio ativo e de seletividade/afinidade droga-receptor, conceitos importantes e enraizados no pensamento farmacológico corrente. A ayahuasca, por exemplo, combina um inibidor da MAO presente no cipó Banisteriopsis caapi com o DMT presente nas folhas de outra planta, a Psychotria viridis, para ser ativa por via oral. Entretanto, mas também possuem propriedades importantes as harminas e harmalinas presentes no chá. O exemplo de diversidade de ação farmacológica mais extremo provavelmente é o LSD, substância que é psicoativa em diminutas doses, que cabem na ponta dum alfinete (na ordem de microgramas, enquanto a maioria dos agentes conhecidos é efetivo apenas em doses centenas de vezes maiores, de miligramas em diante). O LSD possui seletividade muito baixa, sendo ativo em pelo menos 13 receptores diferentes, incluindo uma grande variedade de serotonérgicos e dopaminérgicos.</p>
<p style="text-align: center;">
<div id="attachment_2831" class="wp-caption aligncenter" style="width: 607px"><a href="http://blog.sbnec.org.br/wp-content/uploads/2010/07/dave-nichols-at-MAPS-20102.jpg"><img class="size-large wp-image-2831    " src="http://blog.sbnec.org.br/wp-content/uploads/2010/07/dave-nichols-at-MAPS-20102-1024x682.jpg" alt="" width="597" height="398" /></a><p class="wp-caption-text">David Nichols fala sobre a variedade de receptores aos quais se ligam os psicodélicos</p></div>
<p style="text-align: justify;">Por fim, já entrando no terreno da prática clínica, os experimentos e terapias psicodélicas desafiam o modelo médico atual do paciente-médico-comprimido-casa. O efeito não se encontra somente na ação farmacológica, mas também no ambiente, nas espectativas, intenções, medos, receios. O que a tempos denomina-se <em>set and setting</em> na cultura psicodélica e que a milênios é praticado seriamente por curandeiros e xamãs, da Sibéria ao Peru<em>.</em> De acordo com Andrew Weil: “<em>Drogas não têm potencial espiritual. Pessoas têm</em>”.</p>
<p style="text-align: justify;">Alguns exemplos talvez ilustrem melhor esta situação: no caso das pesquisas com pacientes próximos da morte, a abordagem com psilocibina não visava o tratamento da doença em si, mas da ansiedade e da perda de qualidade de vida associadas ao processo. Isto vai na contramão da medicina atualmente praticada, que perdeu o foco na saúde e qualidade de vida e desviou-se para o prolongamento da vida a todo custo, por vezes causando mais danos do que oferecendo soluções, como na recusa da sociedade em diversos países em permitir a eutanásia. Isso está tão entranhado em nossa cultura que os pesquisadores tiveram de ser muito delicados e agir cuidadosamente para deixar claro aos pacientes voluntários de que não se tratava de curar o câncer, mas de oferecer uma nova perspectiva perante ao fato e à proximidade da morte.</p>
<p style="text-align: justify;">Na pesquisa básica, os experimentos com os receptores serotonérgicos onde atuam os psicodélicos (principalmente o 5HT2A) revelaram que existe um mecanismo de ação farmacológica hoje conhecido como <em>seletividade funcional</em> (“functional selectivity”), no qual diferentes substâncias, ao se ligarem a um mesmo sítio de um mesmo receptor, podem ativar vias intracelulares distintas. Isto contraria um dos princípios chave da farmacologia moderna, que diz que “um receptor desencadeia uma resposta celular”. De acordo com Dave Nichols, este fato é, por si só, motivo para que se reescrevam todos os livros didáticos de farmacologia.</p>
<p style="text-align: justify;">No que diz respeito às neurociências, os psicodélicos estão disponíveis como ferramentas inigualáveis para o estudo da consciência, permitindo alterá-la de maneira reproduzível e controlada em ambientes de laboratório. Combinado com modernas técnicas de neuroimagem e eletrofisiologia, o ramo promete mudar nossa compreensão do cérebro e, por que não, de nós mesmos?</p>
<p style="text-align: justify;">
<h3 style="text-align: justify;">Para saber mais:</h3>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://plantandoconsciencia.wordpress.com/2010/07/27/o-futuro-das-pesquisas-com-psicodelicos-e-maconha/" target="_self">Andrew Weil @ MAPS 2010</a> &#8211; O futuro das pesquisas com psicodélicos e maconha (disponível com legendas em en e pt_br)</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://plantandoconsciencia.wordpress.com/2010/05/28/a-experiencia-cosmica-de-stanislav-grof/" target="_self">A experiência cósmica de Stan Grof</a></p>
<p style="text-align: justify;">James Fadiman &#8211; <a href="http://plantandoconsciencia.wordpress.com/2010/03/13/possibilidas-positivas-para-os-psicodelicos/" target="_self">Possibilidades positivas para os psicodélicos</a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://plantandoconsciencia.wordpress.com/2009/11/20/a-terapia-de-annie-com-psilocibina/" target="_self">A Terapia de Annie com Psilocibina</a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://plantandoconsciencia.wordpress.com/2009/09/30/novos-horizontes/" target="_self">Novos Horizontes</a> &#8211; conferência em NY, setembro 2009</p>
<p style="text-align: justify;">Stan Grof -<a href="http://plantandoconsciencia.wordpress.com/2009/07/05/pesquisas-psicodelicas/" target="_self"> Pesquisas Psicodélicas: Passado, presente e futuro</a></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><strong>Eduardo Schenberg</strong> é biomédico, mestre em psicofarmacologia e um quase-doutor em neurociências. É um dos fundadores do <a href="http://www.plantandoconsciencia.org" target="_self">plantandoconsciência</a>, iniciativa dedicada à catalização de um futuro consciente e sustentável.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>O que o cérebro faz?</title>
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		<pubDate>Fri, 29 May 2009 12:57:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>eduardo schenberg</dc:creator>
				<category><![CDATA[Neurociência]]></category>

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<p>A pergunta é central para a neurociência, de qualquer perspectiva que se olhe, seja biológica, computacional, filosófica, ética, religiosa, antropológica, entre outras. Entretanto, a neurociência parece seguir seu rumo alucinante de aventuras e descobertas ignorando esta questão, que a qualquer pausa um pouco mais ponderada, volta a nos afrontar: O que o cérebro faz?  O que faz essa massa gelatinosa dentro de nossa cabeça? Qual sua função essencial?<span id="more-958"></span></p>
<p>Se meu filho me perguntar, não terei uma boa resposta em mãos. Se fosse o coração, bom, o coração bate fazendo circular o sangue no corpo levando energia vital para cada pedacinho. Os rins? Os rins limpam esse sangue, os pulmões trazem energia, os músculos movimentam o corpo e assim por diante. Mas e o cérebro?  O cérebro controla tudo isso. É verdade, mas não é só isso, mesmo uma criança pode intuir. O cérebro pensa. Será uma boa resposta? Talvez, mas explica realmente o que o cérebro faz? Pensar vem do latim <em>pensare</em>, e tem diversos significados, incluindo &#8220;ter na mente&#8221;, &#8220;combinar idéias&#8221; e &#8220;formar pensamentos&#8221;. Estas definições mostram que a resposta se torna um tanto quanto circular. O cérebro pensa, ou nos permite pensar; mas pensar é justamente ter em mente, e assumimos que a mente está ou é uma propriedade do cérebro. Não satisfaz, a não ser que desejemos encerrar a conversa&#8230;</p>
<p>Com o domínio atual da informática sobre nossos meios de comunicação e de trabalho, inclusive o de produção científica e de análise de dados, as idéias oriundas da computação invadiram com força a neurociência. É comum encontrar hoje em dia neurocientistas que respondam que o cérebro &#8220;processa informação&#8221;, muitas vezes comparando-o a um computador. Mas nos escapa que a própria definição de <a href="http://www.scholarpedia.org/article/Special:Search?from=sidebar&amp;search=information&amp;go=Title" target="_blank">informação</a> é elusiva. Ainda assim, a Inteligência Artificial investe nessa linha, tentando reproduzir cada detalhe de cada estimulo existente, para criar uma memória<em> in sílico</em> que seja capaz de armazená-los todos e selecionar a cada momento o que mais se assemelha ao apresentado. Mas será que é isso que o cérebro faz? Temos um híper-computador dentro da cabeça analisando todos os detalhes de cada estímulo em mili-segundos ou alguns poucos segundos?</p>
<p>Certamente essas perguntas já passaram pela cabeça, ou seja, pelo cérebro, da maioria de nós, nos trazendo mais uma problemática: o cérebro pergunta a ele mesmo &#8220;o que o cérebro faz&#8221;, levando a um raciocínio também muito comum, de que então o cérebro está tentando entender ele mesmo. Mas seria isto possível? Como pode alguma coisa entender a si mesma? Ainda mais algo tão complicado quanto o cérebro humano, com mais células empacotadas do que há estrelas no céu. Surge aí um paradoxo, e muitos se rendem a esta visão de que o cérebro não pode compreender a si mesmo e por isso não temos uma boa resposta. Em outros momentos parecemos sentir um sufocamento, inundados pelos detalhes, os resultados&#8230; são tantos! Uma visita ao congresso anual da SBNeC basta para chacoalhar neurônios e glia de qualquer um. Cerca de 700 trabalhos em 4 dias, com detalhes de pernas de moléculas, fluxos de íons, tempos de reação, redes de células, olhos de moscas, canto de pássaros, sonho de gente etc etc. Parece tão difícil que não dá pra sintetizar o que faz um troço tão cheio de detalhes e ao mesmo tempo tão fascinante. E tem gente que acha que o que nos falta é justamente mais detalhes, que temos de saber ainda mais pra responder a pergunta! Talvez mais uns 50 anos&#8230;</p>
<p>Este estado de espírito parece dominar a neurociência há algumas décadas. É justamente sobre isto que nos conta Jeff Hawkins em seu livro <a href="http://www.onintelligence.org" target="_blank">On Intelligence</a> (atualmente sem tradução para o português). Formado em engenharia elétrica em 1979, criador de, entre outras coisas fascinantes, os computadores de mão <a href="http://www.palm.com/br/" target="_blank">Palm e Treo</a>, Hawkins descobriu que sua paixão não era engenharia nem computadores ao ler uma antiga edição especial da Scientific American exclusiva sobre o cérebro. E sua intuição e seu conhecimento das máquinas diziam que cérebros não são computadores, pelo menos não como estes que usamos, eu para digitar o texto, a SBNeC para postar e você para ler. Ele inclusive pensou que a melhor maneira de criar computadores realmente inteligentes era primeiro entender o cérebro&#8230; mas a neurociência dos anos 70 e 80 não pensava assim. De um lado os neurocientistas com pouco interesse na computação, de outro cientistas da computação com nenhum interesse no cérebro. O resultado de sua visão excêntrica foi sua reprovação no MIT e em Berkeley. Mas o mundo gira e ele seguiu sua carreira, criou suas máquinas portáteis e, depois de 20 anos, voltou à sua antiga paixão e criou o <a href="http://www.rni.org" target="_blank">Redwood Neuroscience Institute</a> e a <a href="http://www.numenta.com/" target="_blank">Numenta</a> para trazer uma perspectiva brilhante e sintética com a melhor resposta que já encontrei à pergunta fatal: <strong>O cérebro faz predições</strong>. Predições constantes sobre o mundo, baseado nos estímulos que recebe e na memória de estímulos anteriores, permitindo a emissão do comportamento adequado em cada caso. Uma máquina inigualável de memória e predição.</p>
<p>No livro, Hawkins faz uma argumentação eloqüente e perspicaz, evita os detalhes desnecessários à sua idéia central e foca a questão no neocórtex. Não que o resto não importe, mas para a sua perspectiva de criar máquinas realmente inteligentes, Hawkins parte do princípio que basta entender o córtex, porque é lá que está a inteligência, ou seja, o mecanismo de predição mais refinado. Isso implica que a predição não é uma capacidade exclusiva do córtex, permitindo estender as idéias apresentadas para o resto do cérebro. E o restante, segundo ele, é ainda mais difícil. &#8220;Emoções são mais difíceis, e não queremos máquinas emotivas&#8221;, brinca.</p>
<p>Hawkins chama a atenção para as semelhanças em todo o córtex, que são maiores do que as diferenças. Isto foi proposto por <a href="http://www.amazon.com/gp/product/0262550075/ref=s9_simx_gw_s0_p14_i1?pf_rd_m=ATVPDKIKX0DER&amp;pf_rd_s=center-1&amp;pf_rd_r=0S4N7GF30MHXNRDSR7ZV&amp;pf_rd_t=101&amp;pf_rd_p=470938131&amp;pf_rd_i=507846" target="_blank">Vernon Mountcastle</a> em 1978, que notou que se por um lado temos trabalhos como de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Korbinian_Brodmann" target="_blank">Brodmann</a>, <a href="http://www.scholarpedia.org/article/Cajal" target="_blank">Cajal</a> e outros mostrando a grande variedade de áreas corticais, tipos celulares, densidade de conexões etc, a estrutura geral do córtex é a mesma, seja em áreas visuais, auditivas, motoras ou de associação. Por causa desta semelhança, Mountcastle propôs que qualquer que seja a operação que o córtex faz com os estímulos que recebe, deve ser a mesma para todos os casos, independente de categoria sensorial. Hawkins compara esta idéia de dar mais atenção às semelhanças do que as diferenças com a idéia de Darwin de se perguntar como as espécies podem, apesar das diferenças óbvias que todos catalogavam, serem tão parecidas&#8230;</p>
<p>O neocórtex atinge sua tarefa de memorizar e predizer através de pelo menos três princípios fundamentais: a formação de sequências de padrões, memórias auto-associativas e representações invariantes. Ou seja, o neocórtex forma sequências de sequências de estímulos que recebe ao longo do tempo e os armazena na memória, que podem ser os próprios neurônios operando na forma de redes associativas <a href="http://www.amazon.com/Organization-Behavior-Neuropsychological-Theory/dp/0805843000/ref=sr_1_1?ie=UTF8&amp;s=books&amp;qid=1242915098&amp;sr=1-1" target="_blank">Hebbianas</a>. Toda a memória, sob esta perspectiva, é uma seqüência de representações de sequências de estímulos. Fica fácil constatar isso tentando, por exemplo, recordar o alfabeto ao contrário, de Z para A. É extremamente difícil, enquanto na ordem memorizada durante a infância, de A a Z, é automático e rápido. Isto porque a memória de cada letra está automaticamente associada à anterior e também a próxima, e não como um item isolado. Esta associação de estímulos na memória ocorre todo o tempo, em todas as categorias sensoriais, formando sempre sequências relacionadas no tempo e espaço. O segundo princípio fundamental é a capacidade de formar memórias auto-associativas. Isto significa que apenas uma parte do estímulo nos permite completar o todo, pois cada parte está associada ao todo em uma seqüência. Se ouvimos apenas um trecho de uma música conhecida, automaticamente recordamos e imaginamos o restante mentalmente, pois o trecho desencadeia a representação de toda a seqüência armazenada no córtex. O terceiro princípio é de que as representações formadas na memória são invariantes. Isto quer dizer que o cérebro armazena padrões de maneira não fidedigna. Não armazenamos cada detalhe de cada estímulo, mas apenas as relações principais que nos permitem evocá-lo na memória para reconhecê-lo. Um bom exemplo é o que ocorre quando um amigo muda o corte de cabelo, ou de maneira mais dramática, quando a namorada pinta o cabelo. Se a cor não for muito distinta, podemos passar muito tempo sem notar a diferença (o que pode ser extremamente perigoso no caso). Isto ocorre pois em nosso córtex a representação daquela pessoa é invariante, no sentido de que mesmo que ela mude um pouco o visual, ainda a reconhecemos como a mesma pessoa. No caso de uma mudança muito radical, como por exemplo o cabelo pintado de verde, isto irá ser muito discrepante com nossa memória e o cérebro irá direcionar o comportamento para averiguar o que há de novo que violou as expectativas, nos fazendo prestar atenção ao estímulo e por fim tomar consciência do fato de que se trata da mesma pessoa, mas com cabelo tingido. Ou seja, mesmo que um estímulo mude sutilmente de milhares de maneiras, nossa representação cortical para ele é a mesma. É isto que nos permite identificar um objeto como sendo ele mesmo, seja parcialmente encoberto por outro em nosso campo de visão ou visto de ponta cabeça. Estas representações invariantes formadas na memória e evocadas de maneira completa por fragmentos de estímulos que chegam a cada momento permitem a predição dos estímulos que chegarão no futuro próximo, que são provavelmente aqueles que completam o padrão evocado pelo fragmento mais recente.</p>
<p>Esta perspectiva é radicalmente diferente de entender o cérebro como um processador de informações porque não se trata de apenas emitir o comportamento de acordo com os estímulos recebidos, como no <a href="http://www.scholarpedia.org/article/Pavlovian_conditioning" target="_blank">condicionamento clássico pavloviano</a>, mas a capacidade de predição faz com que o cérebro direcione o comportamento <em>a priori</em> para satisfazer sua expectativa. Por exemplo, quando analisamos os movimentos oculares de alguém ao encontrar um rosto em seu campo de visão, as sacadas direcionam o olhar repetidamente entre os olhos e a boca de maneira muito rápida e precisa. Como podemos coordenar os movimentos oculares e acertar onde estão os olhos e a boca com tanta rapidez e precisão, mesmo que a pessoa esteja em ângulos e distâncias variadas? O córtex, ao receber a imagem de um olho, acessa rapidamente a memória correspondente, que está associada à forma de um rosto em nossa mente, e portanto ocorre a predição de que onde tem um olho é provável ter outro ao lado e uma boca embaixo. Esta predição direciona a próxima sacada já esperando, por exemplo, o outro olho e a seguir a boca e nariz e por aí vai, numa seqüência cíclica de memória-predição-confirmação. Portanto direcionamos o olhar já esperando encontrar olho-olho-boca-olho, por exemplo. Se isto ocorre, rapidamente confirmamos que há uma face, sem necessidade de examinar cada detalhe do estímulo. Este modelo também nos permite entender, por exemplo, porque as vezes enxergamos rostos em nuvens, pois o cérebro se depara com este padrão inúmeras vezes ao dia, milhares na vida, e ao encontrar um padrão levemente parecido com um fragmento de rosto o completa automaticamente com o padrão total armazenado na memória associado àquele tipo de fragmento, gerando a sensação de face mesmo que esta não esteja de fato lá. Este mesmo mecanismo, com pequenas variações, explica diversos fenômenos de ilusão de ótica e percepção, inclusive como nos tornamos conscientes de certos aspectos e não de outros, potencialmente iluminando diversas áreas da neurociência que são por muitas vezes ignoradas.</p>
<address>*Eduardo Schenberg é aluno de doutorado em neurociências e comportamento pela USP e um dos criadores do <a href="http://www.plantandoconsciencia.org" target="_blank">www.plantandoconsciencia.org</a></address>
<p>para saber mais:<br />
<a href="http://www.ted.com/index.php/talks/jeff_hawkins_on_how_brain_science_will_change_computing.html" target="_blank">Jeff Hawkins@TED</a> (20 min, legenda em português disponível no menu abaixo do vídeo)<br />
<a href="http://mitworld.mit.edu/video/316" target="_blank">Jeff Hawkins@MIT</a> (50 min, somente em inglês)<br />
<a href="http://dotsub.com/view/4846b2fd-df09-4b56-8377-720ae14938b9" target="_blank">Dan Dennett@TED </a> (20 min, legenda em português disponível no menu abaixo do vídeo)</p>
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		<title>A Crise não é financeira</title>
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		<pubDate>Wed, 27 May 2009 01:19:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>eduardo schenberg</dc:creator>
				<category><![CDATA[Neurociência]]></category>
		<category><![CDATA[aquecimento global]]></category>
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										</div><p><img class="alignleft size-full wp-image-743" title="logo1" src="http://blog.sbnec.org.br/wp-content/uploads/2009/05/logo1.png" alt="logo1" width="188" height="62" /><em>&#8220;The principle of wor</em><em>ld-</em><em>c</em><em>h</em><em>anging enters the stage during the 17th century. In the course of the 18th and 19th century it becomes the ideology of pro</em><em>gress, and during the 20th century it grows to become a great power ruining the environment. Since then we begin to realize that world-changing without self-changing means an agenda of destruction.&#8221;</em> Peter Sloterdijk</p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-948" title="finance-crisis-photo1" src="http://blog.sbnec.org.br/wp-content/uploads/2009/05/finance-crisis-photo1.jpg" alt="finance-crisis-photo1" width="250" height="265" />As manchetes não param. Crise pra lá, crise pra cá. PIBs crescendo menos que o previsto e almejado, trabalhadores protestando por demissões em massa, montadoras falindo, bancos quebrando. Perante tal cenário, não me atreveria a dizer que a crise financeira não existe. Refiro-me às bases da crise, suas origens mais profundas e sutis; e proponho, junto a muitas outras pessoas mundo afora, que estas não são exclusivamente econômicas.</p>
<p><span id="more-936"></span></p>
<p>Em primeiro lugar, a crise não é, absolutamente, apenas financeira. As mudanças climáticas e o aquecimento global são o mais notório exemplo de que a crise tem proporções muito maiores do que a quebra de bancos e o desemprego em larga escala. Se desemprego em massa é preocupante, o que dizer de extinção em massa? Neste exato momento enfrentamos o que se chama a 6X (1), a sexta maior extinção em massa na história do planeta. E também enfrentamos uma crise global de água (2) e energia (3). Portanto, se olharmos de uma perspectiva mais abrangente, veremos que a crise existe simultaneamente em muitas áreas: ambiente, educação, cultura, política, direitos humanos, religião, etc.</p>
<p>Mas não se trata de um momento de caos ou de fim dos tempos em que seremos confrontados com forças superiores e incontroláveis, trata-se de uma série de eventos que estão relacionados de maneira muito mais íntima do que aparenta ao olhar superficial. Todos eles são sintomas de uma única doença, são reflexos distintos de um único e mesmo fenômeno: A crise em questão é uma crise de consciência.  Nos faltou consciência, como indivíduos e como sociedade. E em larga escala. Não estivemos conscientes nas últimas décadas da impossibilidade de manutenção de um consumismo exacerbado por uma população que cresce exponencialmente em um planeta finito. Este modelo têm como conseqüências graves desequilíbrios ecológicos e o esgotamento dos recursos naturais (4), que está diretamente relacionado aos problemas de água e energia. Estes por sua vez ameaçam a manutenção do próprio sistema econômico, que depende desses recursos como propulsão.</p>
<p>Quando entendemos esta perspectiva unificada, de que há uma origem comum a diversos aspectos da situação atual, a possibilidade de uma solução se torna mais palpável. Diminui a sensação de impotência. Esta visão nos torna capazes de encarar a crise não com medo, mas com esperança; como uma oportunidade para mudanças radicalmente positivas. Um exemplo cotidiano: apesar de a grande maioria de nós saber que não devemos jogar a bituca ou o papelzinho na rua, é difícil encontrar alguém que tenha real consciência da dimensão do problema. Isto se deve à distância perceptual que há entre uma ou duas bitucas de um sujeito eventualmente jogadas na sarjeta até ao amontoado que se forma no subsolo, arremessadas diariamente por milhares de habitantes de uma megalópole como São Paulo ou Rio de Janeiro. Atitudes cotidianas e aparentemente sem maiores consequências, como jogar bituca de cigarro nas ruas, geram consequências abrangentes de um ponto de vista mais amplo (no caso, os entupimentos de bueiros e acúmulo de lixo urbano, os quais facilitam a ocorrência de enchentes e trazem possibilidade de doenças).</p>
<p>Coisas semelhantes ocorreram na especulação imobiliária nos EUA ou na poluição das grandes capitais pela horda de automóveis a combustão, que causam algo inimaginável se pensarmos do ponto de vista de um único carro, ou alguns poucos. Existem muitos outros fenômenos semelhantes, tanto na esfera ambiental, como poluição de ar, terra, água e desmatamento, como na política com a corrupção crescente e na economia com um modelo demasiadamente concentrador de renda, inconsequentemente especulativo e arriscado. Não deixamos a situação se agravar tanto porque não tivemos alternativas viáveis, por exemplo, ao uso excessivo de combustíveis fósseis (5), como etanol (6), energia eólica (7) e biológica (8); mas porque não tivemos, como indivíduos e como coletividade, a verdadeira consciência das reais conseqüências destas atitudes (ou da falta delas). Não deixamos de implementar alternativas possíveis para um capitalismo mais humanitário (9) porque não haviam possibilidades, mas porque seguimos profundamente hipnotizados pela promessa de enriquecimento material como objetivo de vida.</p>
<p>É justamente esta percepção de que o problema fundamental está em nossa própria consciência que nos propicia algo fantástico, que é virar a crise a nosso favor, a favor da coletividade humana e da vida no planeta. Esta é uma oportunidade única porque não é uma crise financeira nos EUA ou na Europa, é global. Não se trata de poluição e esgotamento do petróleo na China, é no mundo todo. O aquecimento não vê fronteiras. Estes fenômenos, justamente por serem todos de escala mundial, praticamente nos intimam a quebrar a barreira do individualismo e da segregação de povos, nações e credos. Nos propiciam um momento ímpar para abandonar a cultura egocêntrica do enriquecimento material individual como meta de felicidade. Isto permite o florescimento de uma nova consciência sobre o planeta, sobre nós mesmos e sobre qual é o nosso lugar nesta rede viva, única no universo.</p>
<address>*Eduardo Schenberg é aluno de doutorado em neurociências e comportamento &#8211; USP</address>
<p>Para saber mais sobre assuntos relacionados: http://www.plantandoconsciencia.org</p>
<p>1 &#8211; <a href="http://www.actionbioscience.org/newfrontiers/eldredge2.html" target="_blank">6X</a><br />
2 – <a href="http://www.worldwatercouncil.org" target="_blank">World Water Council</a><br />
3 – <a href="http://www.irena.org" target="_blank">IRENA</a><br />
4 – <a href="http://www.nature.com/nature/journal/v456/n1s/full/twas08.44a.html" target="_blank">Creative Accounting</a><br />
5 – <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Peak_oil" target="_blank">Peak Oil</a><br />
6 – <a href="http://www.nature.com/nature/journal/v456/n1s/full/twas08.26a.html" target="_blank">Pumping Renewables</a><br />
7 – <a href="http://www.agencia.fapesp.br/materia/9886/especiais/ventos-ignorados.htm" target="_blank">Ventos Ignorados</a><br />
8 &#8211; <a href="http://www.agencia.fapesp.br/materia/9765/noticias/sao-paulo-ganha-livro-sobre-bioenergia.htm" target="_blank">Bioenergia</a><br />
9 &#8211; <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Felicidade_Interna_Bruta" target="_blank">FIB</a></p>
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