Sonhos criativos: civilizações galáticas e gripe suína

Há poucos dias, postei sobre uma recente pesquisa envolvendo criatividade e sonhos. Fiz um comentário meio cético, dizendo que se houver relação entre sonhos e solução de problemas, isso provavelmente seria uma exadaptação biológica, mas não a função primordial dos mesmos.
Poucos dias depois, meu inconsciente me prega uma peça, fornecendo um exemplo de sonho criativo (no sentido de produzir associações entre assuntos diversos). No sonho, eu percebi que a fórmula de Drake para probabilidade de existir civilizações tecnológicas na Galáxia envolve o mesmo tipo de raciocínio usado no cálculo da taxa de mortalidade da gripe (suína) pelo Ministério da Saúde do Brasil.
Explico: no Plano Brasileiro de Preparação para uma Pandemia de Influenza (3a versão – abril 2006), existe um modelo estático para estimar o número de óbitos de uma temporada de gripe. Ele pode ser resumido pela fórmula (ver esquema na figura):
Número de Óbitos = Po x Pag x Pc x Pat x N, onde
  • Po = probabilidade de óbito
  • Pag = Probabilidade de agravamento
  • Pc = Probabilidade de complicação
  • Pat = Probabilidade de ataque
  • N = Número de indivíduos da população.

Eu tinha visto essa figura em dias anteriores e ela reapareceu durante o sonho. Daí eu percebi que o tipo de raciocínio é idêntico ao usado na fórmula de Drake, a saber:
N = R* x fp x ne x fl x fi x fc x LOnde:

  • N é o número de civilizações extraterrestres em nossa galáxia com as quais poderíamos ter chances de estabelecer comunicação.
  • R* é a taxa de formação de estrelas em nossa galáxia
  • fp é a fração de tais estrelas que possuem planetas em órbita
  • ne é o número médio de planetas que potencialmente permitem o desenvolvimento de vida por estrela que tem planetas
  • fl é a fração dos planetas com potencial para vida que realmente desenvolvem vida
  • fi é a fração dos planetas que desenvolvem vida que desenvolvem vida inteligente
  • fc é a fração dos planetas que desenvolvem vida inteligente e que têm o desejo e os meios necessários para estabelecer comunicação
  • L é o tempo esperado de vida de tal civilização
Ou seja, a fórmula de Drake é um modelo estático como o do Ministério da Saúde. Mas é possível usar modelos melhores, dinâmicos, por exemplo o modelo SIR (susceptible-infected-recovered).
Daí, durante o sonho, eu percebi que o ferramental teórico da epidemiologia poderia ser um quadro adequado para se pensar o paradoxo de Fermi. Afinal, a expansão de uma civilização na galáxia pode ser pensada como um processo de infecção de uma população de planetas “suscetíveis”, ou seja, capazes de abrigar vida. O tempo de duração de uma civilização planetária capaz de produzir outras colônias corresponde ao tempo de infecção. O planeta entra no estado “recuperado” quando sua civilização morre ou se torna indiferente à criação de novas colônias. Acho que vocês já entenderam (sim, somos os vírus do Universo!).
Sendo assim, o modelo SIR poderia fornecer uma nova resposta (mais uma?) para a pergunta de porque estamos sós (pelo menos em nossa vizinhança). No modelo SIR, dependendo da taxa de infecção e da duração do estágio de infecção, a onda epidêmica atinge apenas uma fração dos sítios totais (curva verde acima). Além disso, em um dado momento, existe apenas uma fração pequena de sítios ativos (civilizações vivas, curva vermelha).
Assim, teríamos uma sucessão de ondas epidêmicas (colonizações galáticas) que de forma nenhuma atingem a maioria dos planetas num dado momento. É possível ainda que estejamos vivendo em uma era inter-epidêmica, entre duas grandes ondas civilizatórias: isso explicaria o “grande silêncio”.
Tudo isso eu percebi e comentei com alguém durante o sonho. Logo, devo reconhecer que algumas vezes os sonhos geram novas associações, sim.
O ponto chave do modelo é que a duração de uma civilização tecnológica em um dado planeta (ou melhor, uma civilização fértil capaz de produzir colônias) tem que ser finita. É sabido que, devido ao aquecimento do Sol, nossa biosfera deverá morrer em 500.000 anos, isso fornece um limite superior. Mas afinal, ninguém fica para semente, não é mesmo?
PS: OK, OK, seria melhor usar um modelo SIR na rede, mas tudo bem: o modelo SIR tradicional, onde distâncias espaciais não importam, corresponderia ao caso otimista de civilizações com WARP.
Do plano do Ministério da Saúde:
a) Modelo estático para geração de estimativas globais:

Para gerar estimativas globais foi construído um modelo estático que representa o fluxo de indivíduos ao longo de cinco categorias, como ilustrado na figura abaixo. Este modelo segue a mesma estrutura geral dos modelos proposto para a Holanda (Genugten, 2002).

Dependendo da virulência do patógeno, uma fração maior ou menor desta população de gripados virá a evoluir para quadros mais complicados, por exemplo: bronquite aguda, pneumonia, sinusite, otite, ou exacerbação de condições crônicas. Sem tratamento adequado, uma fração destes “casos complicados” deve evoluir para um quadro grave e uma fração destes casos deverá ir a óbito.
Postado por Osame Kinouchi às Sábado, Julho 11, 2009 

Sebastian disse…
Osame:Os céticos dizem que os místicos são sonhadores e vivem num mundo irreal.Mas com essa fórmula acho que agora está havendo um chega-pra-cá, dos racionalistas céticos, com um vem-mais-um pouco-meu-bem, dos místicos.Abraço.
Osame Kinouchi disse…
Eu não sei por que alguns leitores deste blog encucaram que eu sou do movimento cético. Eu não sou, sou apenas um cientista que acredita em muitas coisas ainda não demonstradas pela ciência, tais como criticalidade auto-organizada em redes neurais, Darwinismo Cosmológico ou que o budismo Mahayana é um sincretismo entre Budismo e Cristianismo…Não são ciência consensual, mas são hipóteses científicas… e se você for cético em relação às suas próprias hipóteses científicas… bem… você não irá muito longe nesta carreira não…
Sidarta Ribeiro disse…
Osame,Muito legal o post, um belo exemplo de insight onírico na ciência. Acredito que os sonhos não são peças isoladas de um quebra-cabeças, nem cadeias lineares de memórias, mas sim uma concatenação de representações de acordo com as emoções dominantes do sonhador. Idéias novas vêm necessariamente da recombinação de idéias velhas. Os sonhos são oráculos cegos que criam cenários futuros com base apenas na experiência do passado, orientando as ações da vigília de modo a maximizar a adaptação ao ambiente. Este aspecto onírico de predição do futuro, ou mais exatamente de especulação sobre o futuro, é provavelmente a explicação para a crença generalizada na premonição onírica em diversas sociedades do passado. Apesar de probabilísticos, os sonhos por vezes predizem muito precisamente os acontecimentos futuros. Este é um fenômeno raro na sociedade moderna, mas adivinhos de sonhos desempenharam um papel histórico importante nas civilizações da Antiguidade. Hoje em dia, a interpretação dos sonhos continua a ser bastante relevante em muitas das chamadas culturas “primitivas”.De que forma é possível conciliar a explicação materialista dos sonhos com a função premonitória a eles atribuída por tantas tradições diferentes? O ponto de encontro é a reativação e recombinação de memórias durante o sono, que alimentam o enredo onírico. Para vivenciá-lo subjetivamente, não basta reverberar padrões de atividade neural. É preciso concatená-los numa busca da satisfação do desejo mediada por dopamina, de forma a simular uma sequência comportamental plausível, capaz de inserir-se num futuro em potencial que inclua o ambiente e o próprio sonhador. Governado por emoções e motivações, o sonho permite a simulação de futuros possíveis, tão mais claros e prováveis quanto mais marcantes e previsíveis forem os desafios da vigília. Nessa concepção, a função primitiva dos sonhos é a simulação de estratégias comportamentais, adaptativas ou não. Recompensando os circuitos neurais dos sonhos bons e punindo os circuitos subjacentes aos pesadelos, é possível aprender durante a noite sem os riscos da realidade.As fortes pressões seletivas sobre comportamentos cruciais devem moldar de forma darwinista o enredo do sonho, estereotipando a reverberação mnemônica em relação direta com a sobrevivência. Presume-se que os enredos oníricos de animais livres na natureza consistam de poucas narrativas repetidas à exaustão mas com inúmeras variações sobre os mesmos temas: predar e ser predado, fazer a corte e procriar, navegação para forrageio e cuidado parental. Mesmo para nossos ancestrais hominídeos de 500 mil anos atrás, já equipados com armas e fogo, a vida era perigosa e podia acabar mal a qualquer momento. Foi apenas com o advento da pecuária, da agricultura e da medicina xamânica que começamos a nos libertar dos estreitos limites da necessidade.À medida que a vida humana tornou-se mais fácil e mais complexa, com o desenvolvimento da cultura e seus confortos, os sonhos perderam muito de seu poder de previsão, adquirindo um repertório simbólico muito diversificado. Em comparação com outros mamíferos, seres humanos contemporâneos experimentam muito menos ansiedades em seu cotidiano. Predadores não-humanos são raros, a lei inibe a predação entre pessoas, alimentos e cuidados de saúde são acessíveis, e habitamos abrigos permanentes. Nossos sonhos não estão mais sob a influência de eventos de vida ou morte. Ao contrário, são dominados por uma miríade de pequenas frustrações e expectativas prosaicas. Depois da cultura e do símbolo, o sonho virou qualquer nota…Na ausência de vivências cotidianas altamente significativas, não é de surpreender que os sonhos contemporâneos tendam a misturar elementos recentes e triviais da vida desperta com memórias antigas fortemente codificadas, chegando até a infância. Ainda assim, é possível em circunstâncias especiais revelar o caráter adaptativo dos sonhos. Cientistas e artistas sempre se beneficiaram disso. Será que agora você vai começar a escrever um sonhário?

Grande abraço,

Sidarta

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6 Comentários


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